quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

E no terceiro ano ninguém ressuscitou...






     Há três anos, quando se deu a concepção do blog eu me via incomodado com o anagrama estético polifônico que o trio do MUSE havia feito com o RADIOHEAD, QUEEN, RAGE AGAINST THE MACHINE... Hoje o incômodo virou encanto, como se do desprezo nascesse uma paixão. Na verdade, acho que o desdém inicial era prenúncio de um afeto a posteriori. Ao perceber hoje que há três anos coloco algumas idéias por aqui(tá, lá vem de novo... tive aquele “plim”, porque insight é coisa de...) sim, no clima de fim de ano, que antes era balanço do ano, agora é DLPA( Demonstração dos Lucros e Prejuízos Acumulados) e risos de tão irônica que é a vida. Eu que não sou mais irônico de tão irônica que é minha vida, fico surpreso como as guinadas e as inversões de sentido, direção e sentir me trouxeram a lugares diferentes e por vezes aos mesmos lugares.
     Das mudanças estéticas, da ratificação da minha intolerância com a tolerância, do abandono das referências e a construção de referenciais, das abdicações e conquistas... É tão plural que eu poderia passar mais três anos para descrever o que se passou nesses três anos. Eu que envelhecia uns dez anos por mês, hoje, quase que estou remoçando ( e claro que me pego cantando sem mais nem porquê)! Mudança deve ter sido e vem sendo a palavra de ordem pra alguém que muda de endereço na média de uma vez à cada 3,5 anos, mudar deixou de ser um parto(“futuro que se impõe, passado que não se agüenta”)
     A escrita por vezes demandou suas vírgulas, além de várias reticências ( e parênteses). Os sons se fizeram presentes, mas nada que quebrasse a hegemonia do silêncio. As vozes que buscavam o silêncio se encontraram. De “quem canta seus males espanta” à “Não há mal nenhum pra quem canta sozinho”. Agora até acho que a “Vida Parte Dois” nasceu de um aborto, ou mesmo, uma série de abortos paralelos. Reininiciar, formatar tudo, apagar a BIOS, instalar um novo sistema operacional. Acho que até meu hardware mudou, uma vez que perdi cabelo e ganhei peso...
(Pausa. Eu ainda odeio telefone.)
     Por lembrar de música e artes e adjacências, eu me rio por na fase do colorido eu ainda estar no preto e branco...
Acho que por me continuar cego e usar mais filtros, acho que só não uso óculos mesmo para sonhar... Dos sonhos fui lembrando das listas de desejos de outros fins (de ano)e hoje (quase me sentindo velho ou a mais precoce das crianças)acabei trocando os desejos e sonhos por objetivos...
     




sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ela

                Tudo muito simples. Escrever melodias é mais fácil que palavras, é mais intuitivo, mais catártico e às vezes mais verossímil. Conseguir traduzir em melodias o que sente é indescritível, como se o que não coubesse em palavras fosse transbordado em sons. Desses sons que ainda não têm nome(porque nem precisam) eis a primeira parte de uma canção maior, com outras cores que eu escreverei depois(não tenho pressa, Ela está guardada em mim).. Por hora, vale dizer que isso me veio como resposta ao sentimento que me toma quando Ela me vem, como se de cada passo que Ela desse no mundo brotasse uma flor, como se essa melodia fosse tocada cada vez que Ela se faz por perto...



Ela
(Primeiro movimento




video

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"1mano " II

              II



  Não é preciso valer-se da genialidade para concluir que a prevenção é o melhor plano de contingência. O adestramento poupa o criador dos maus feitos da criatura. A disciplina permite o controle, autonomia e a independência. Um homem que é senhor de si mesmo é senhor do mundo. A educação se rege norteada pelo “Princípio da Prudência”(sim, é válida a alusão contábil. Caberia até uma nota de rodapé no mundo Pré-Google). Só quem está preparado para a guerra é capaz de lutar pela paz. A preparação otimiza a ação, o estudo do que já foi escrito germina a escrita vindoura. O exercício redime o homem de seus erros. No entanto, a improvisação recebe uma valoração positiva pelos que se valem do adjetivo humano. De uma forma que só os detentores da onipotência humana sabem, é utilizada a improvisação. O êxito seria creditado à capacidade de improvisação humana ao passo que o fracasso seria responsabilidade do acaso ou da sorte. Ah o acaso, implacável algoz do ser humano! Quando o humano se tornar homem aprenderá a contar com si mesmo e descontar de si mesmo o peso de suas atitudes.
     A pretensão de igualdade, ou mesmo, a falácia do denominador comum. Não seria absurdo ousar dizer a universalização do individual dentro do curral de possibilidades concedidas de forma indulgente à alteridade. O respeito ao outro se dá por esforço. Aquele que hipoteticamente desrespeita se vê refém do preconceito com o preconceito. A utópica ausência de preconceitos hostiliza os que desafinam do coro dos politicamente corretos. Sob a licença e o crachá de oprimido levantam-se bandeiras reativas que precisam negar o mundo como única forma de afirmação. Evidencia-se muitas vezes a opção pelo desejo do “Não” em contraponto com o “Não-desejo”. Os rebeldes sem causa possuem um álibi embasado na intolerante tolerância advinda do “humano”. Dos que utilizam a dor como recurso estético aos que se valem da dor como forma de dar sentido ao que se sente,qual coração que ao pulsar só lateja dor? O vazio acaba ganhando várias formas numa infinita sucessão de formas de se traduzir o nada. A dor virou uma fantasia de boutique para Eles ( que muitas vezes querem ser elas que querem ser eles) que preferem querer o Não ( em uma sucessiva negação da vida) a não ter o que querer da vida. O vazio se “reinicia” e ganha formas e muitas cores que se passam por conteúdo. A superficialidade ganha volume(mas nunca densidade) quando a forma se faz conteúdo.
     Verso que não finda ganha reticências, texto que não acaba vira desdobramento de si mesmo. Como se as idéias orbitassem de forma coloidal e por ironia a gravidade bastasse para que elas caíssem no papel. Texto que prescinde fim carece de continuação.








quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"1mano"

    


     Seria este o adjetivo humano a antítese inerente a nossa existência? O mesmo a nos divinizar com o mérito de nossa criatividade e a nos justificar pelo fracasso de nossas criações.

     A palavra “humano” que demanda ser atualizada à cada contexto social, histórico e temporal. Em um mosaico polifônico de sentidos que não comportam ainda a totalidade do (que é) ser humano.

     Das construções indefinidas de si às estruturas pré-concebidas do alheio se faz presente o humano. Ao tomar o indivíduo como centro das discussões e ao destroná-lo do centro do universo[1] em prol da coletividade. Não obstante, falar sobre o indivíduo é negá-lo. Sob a pretensão de ser universal, ou mesmo imortal para os que se escrevem mais descolados da realidade, se aniquila o indivíduo trucidando o que lhe houver de mais ímpar(primo ou singular) para viabilizar a existência de um denominador comum, muitas vezes mais próximo do surreal que do verossímil.

     Seja o direito, o certo, o bem, o bom ( e seus sensos e sentidos), não se encontra proposição que não advinda de uma preposição. As visões de mundo traduzem visões de si elevadas a enésima potência. A empatia é um recurso argumentativo-retórico que ao supostamente colocar-se na condição do outro nega-lhe a possibilidade de discordar, o que implicaria soar dissonante com si mesmo. “Transvestida”, não poucas vezes, de altruísmo, fraternidade ou algum elemento valorado como superior, a empatia constrói-se como fundamento para a arte de se ter sempre razão. Uma afirmação de si legitimada pelo olhar do outro que me vê sob meus olhos. Uma vez que é impossível sentar-se no “trono” da alteridade, não vislumbro nesse momento quaisquer argumentos que não corroborem tais proposições sobre a relação empática. Ratifico que a empatia é um recurso para se manter a posse da razão. Ao simular a posição do outro “transvisto” minha posição como alheia retificando os inconvenientes argumentativos e consolidando a razão como posse minha.

     Ah, a didática, as parábolas, as alegorias, às metáforas... ode ao subentendido e suas orgias com as entrelinhas...
“-Calma, não é o que você está pensando!” Que inversão da situação de berlinda! A vítima agora é algoz! Ao ter plena ciência do meu feito desloco-me para o ponto de observação do outro com a prepotência de prever seus pensamentos e absolver-me antes de qualquer acusação e julgamento sobre meu feitio. No entanto. A defesa sem ataque manifesto é mais que confissão, é condenação. O meu olhar sob os olhos alheios diz mais de mim que do outro.

     Ainda há acordos tácitos sendo assinados no “arrepio” de nossas consciências , enquanto os “homens” dormem, os “humanos” fazem a festa. Os valores acordados pelos homens como nobres ganham licenças poéticas no instante em que todas as cores combinam, quando todos os gatos são pardos, na penumbra da percepção, consegue-se a carta de alforria para o impraticável, quando tudo que ainda não foi proibido é permitido.
     O efeito etílico, o efeito de grupo, os entorpecentes do espírito e do corpo, as religiões, as excludentes, os excluídos, os direitos humanos para os que optam por caminhos tortos e as “humanizações” de que se valem os meninos quando tentam se passar por homens.

     Transformar isso em algo concreto é transtornar estruturas frágeis, mas já consolidadas há tanto. Seria leviano privá-los do pouco que têm. A indiferença, por mais que soe como omissão aos ouvidos mais afetados, ainda é um solvente universal. Humanizar relações muitas vezes implica tolerância com o intolerável[2]. É clichê ver a evocação da “Liga da justiça dos Direitos Humanos” para a proteção dos animais que estão na iminência de serem sacrificados. Quiçá seja preciso doar um pouco de humanidade para os mais desumanos; nessas horas em que o herói(“Super-Humano”), sob os holofotes a iluminar seu altruísmo e fliantropia, doa poções de humanidade às porções mais desumanas da humanidade  Quisera que houvesse menos luz para que não ofuscados pudéssemos ver a culpa e o egoísmo procurando uma válvula de escape. No entanto, também seria possível a percepção do espelho, e Narciso continuaria aplaudindo, em uníssono com sua apatia, a sua empática televisão.
    


[1]  Outrora , quando os pais da ciência enfrentavam os santos, foi descartada a idéia de que o universo girava ao redor da Terra, agora o universo gira ao redor do homem segundo as cartas de pais de santos. (Eram os deuses astrológicos?)
[2]  “Um homem só senta à mesa com sua família ou seus amigos.”

domingo, 2 de maio de 2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

De como e quando as respostas ganhavam mais sentido que as dúvidas...













“Âncora, vela
Qual me leva?
Qual me prende?
Mapas e bússolas,
sorte e acaso,
Quem sabe (?)
do que depende?”
Gessinger


         






      De como e quando as respostas ganhavam mais sentido que as dúvidas. Acho que só escolhemos no que vamos acreditar e pronto. Meio que do princípio da confiança mesmo: acreditar sem precisar entender nada. Outrora se acreditara na astrologia e magias, depois se acreditou na religião e hoje se credita à ciência a competência de delegar verdades. Saindo do macro( há muito saí da Sociologia) e caindo no micro( há bem menos caí na Psicologia), não é do lado de fora que acontece o “big bang” nosso de cada dia . (Vontade de citar as fontes, mas acho que se eu citar uma vez... Fico me rindo de quem falou “só uma vez” diante de um “moto perpétuo...”) “Ok, você venceu, batata frita” e “Ao vencedor, as batatas...”, eu cito AAs fontes só por hoje. (Uma “Blitz” e depois um “Machado”). Quando se olha pro lado de fora da janela, quando eu espero que o sol bata na janela do meu quarto, ( odeio literalmente quando isso acontece e antipatizo com o “bundismo” transvestido do Renato nessa música. O cara secciona a idéia budista para caber em uma música de auto-ajuda. Tenho meus receios diante dos “Leitores Van Gogh”, aqueles que lêem só a orelha do livro.). Pelo visto, hoje é dia de afetação pelo “rhabdovírus” e vou morder todo mundo que passar pela frente das minhas idéias. Retomando aquilo que eu estava falando (mal),  quando eu coloco o meu olhar na janela eu tiro os olhos do que há dentro do quarto. Eu quero mudar o mundo lá fora e esqueço das mudanças do mundo aqui dentro( ênfase no terceiro mundo que fica do lado esquerdo do peito.) Acho que o “Deleuze ou Guatarri”, (sempre confundi os dois, como quem confunde dupla sertaneja) que falava das micro-revoluções, as  pequenas revoluções individuais que podem mudar o mundo e não a “grande revolução” que ambiciona mudar todo mundo. Na verdade, acho que essa idéia é um plágio da idéia do Johnn Lennon que uma vez disse: “So start a revolution from my bed...”, aí aquele carinha arrogante que toca guitarra (Ha! Nem sou eu dessa vez...) fez uma música (Don’t look back in anger) a partir disso. Bem copiado mesmo, o cara admitiu mesmo , a tonalidade e a introdução é quase um parônimo da música “Imagine” mesmo, disse que tinha pegado do Lennon mesmo e que o sonho dele era ser a Yoko Ono... Pelo menos ele admitiu, mais nobre e mais digno. (Ainda bem que eu cito as fontes.) O que vai me encantando é que de uma frase (“Dizei uma só palavra e serei salvo”... o legal é que ele não disse qual era essa palavra...), se constrói um mundo de idéias. Eu imagino a despretensão do John ao dizer isso. Excetuando-se a possibilidade de erro, acho que ele falou em uma entrevista qualquer que o Gallagher ouviu e tomou pra si, como eu tomo de empréstimo agora nesse texto. A força de uma frase, de uma palavra. Acho que quem a diz não tem a dimensão da força que ela pode carregar ou agregar, porque às vezes, uma palavra muda tudo, (“parte o silêncio e quebra o coração”) muda a estória e muda o curso da história, muda o mundo e muda todo mundo. Porque às vezes só é preciso uma palavra, às vezes só é preciso um “Sim”...









sexta-feira, 23 de abril de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Da minha espécie em extinção...

“A insônia é um sonho que não acaba”?


     A insônia é um dispositivo criado pela escrita para vir ao mundo? A insônia é a cara metade da solidão? Os quartos escuros estão cheios de quais vazios? Das alcovas dos que escrevem, das cabeças cheias e corações vazios de outrora, haveria, à revelia, alguma epifania nisso?
     Drogas para dormir, drogas para ficar acordado, drogas para ficar legal, drogas para parar de tomar drogas, a solução para as drogas da vida cabe em um comprimido? (A alegria e os sorrisos podem ser comprimidos?) A vida em um apartamento, o medo protegido por grades, as pequenas pessoas e suas grandes cidades com idéias de concreto e afetos virtuais, e de mais quantas formas o medo se vale e se passa por violência, egoísmo e fantasia?
     Quanto vale a vida, abortada ou sintetizada, emulada? Esse “The Sims” que jogamos off line, onde estão as vozes acapella orgânicas cultivadas no deserto (e/ou em alto mar) longe dos “fast foods” e “fast fucks”, da vida sintetizada pelos MAC Donald’s e pelos MACintosh?
     Ah, minha espécie em extinção... à minha espécie em extinção,  que(m) resta de nós mesmos? Um chamado, uma chamada telefônica, um grito de socorro, um sinal de fumaça, um sms, um MSN, um código Morse, um pombo correio, um telefonema, um telegrama, um email, uma carta, uma mensagem numa garrafa ao mar, um olhar, um som, um sim, uma entrelinha...




domingo, 18 de abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010






"...Certos dias têm cara de vida inteira
Não sei se é do vinho ou da vida
quando fico assim
Outra madrugada perdida
procurando você
procurando por mim..."

Dado Villa-Lobos






  Sem hesitar, ele é o pior guitarrista que eu conheço. Eu sempre senti vergonha por ele tocando guitarra, até que um dia ele resolveu cantar e a vergonha virou um eufemismo. No entanto, o conheci de uma das bandas mais marcantes em muitas das minhas trajetórias(das musicais às existenciais). Ainda bem que ele insistiu em tirar as idéias da gaveta e publicá-las. Ainda bem que ele fez do receio poesia¹. Ainda bem que ele tocava coisas simples e mal estruturadas, um rascunho do que poderia vir a ser uma música mesmo. (inerente da escola punk).Se ele tinha coragem de tocar como tocava/toca e se dizer guitarrista, eu poderia ter coragem para também tocar guitarra. (Eu insisto em cada erro e ainda me passo por inteligente). A entrelinha aqui, desse rascunho(escrito no blog e não no word), é que a insônia cansa, esperar o sono cansa, sonhar só acordado cansa e a madrugada em claro é um cansaço que se reflete por todo o dia. Queria eu mais sono e menos idéias, segundo Simpson, H., a felicidade é inversamente proporcional ao montante qualitativo e quantitativo de idéias de um indivíduo. Concordo, não ouso dizer não, se fosse mulher seria como "daquelas  mulheres (do Chico) que só dizem sim", e hoje nem é o dia de dizer não. Lembro da célebre história de que o Dado entrou na banda( e na história) e nunca havia tocado guitarra. O Renato dizia: "Faz o barulhinho que tá bom..."( Quase uma teoria: "O cara errado na hora certa"). Dessas histórias de outrora, espanta e encanta ver que do guitarrista medíocre musicalmente não me recordo nenhum solo ou acorde ou timbre ou algo "guitarrístico", só algumas palavras, que ele por despretensão ou "por amor às causas perdidas"² escreveu isso  e ousou dividir comigo e com o mundo; e isso ecoa como um delay infinito³ nos meus ouvidos...



























1- No sentido grego, de poiesis.

2- Dom Quixote de la Engenharia Hawaiiana.

3- A melhor maneira que eu encontrei de parar esse efeito de guitarra é desligando o amplificador da tomada.





quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dos erros e quase acertos...





     Ainda que em exercício de indiferença ao alheio, incomodava-me algumas organizações de mundo ao meu redor. Não que agora eu tivesse a posse da verdade ou tivesse rasgado minhas leituras de outrora e agora me tornasse senhor e definidor do bem e do mal. Incomodava-me algumas inversões, se “por amor às causas perdidas[1]”, cederia uma licença poética, mas no entanto, era apenas “peixe fora d´água, borboletas no aquário”.[2]
     O desdém alheio por aquilo que aos meus olhos parecia perfeito não era de agora e já não me era problema. Mas tarde da noite, antes do sono, quando ainda é cedo para sonhar, algumas imagens e sons me saltavam as idéias (na ausência de carneirinhos e cercas). Indagava-me sobre as construções embasadas em conjunturas e não em estruturas. O cara errado no lugar certo e na hora certa; o silêncio fazendo se passar como a palavra certa; a voz do povo e o equívoco divino; e a história acontecendo “com ou sem você[3]”.
     As melhores cartas na mão do pior jogador, um expediente válido para o equilíbrio do universo? Ainda que a derrota seja inevitável, ainda me é possível escolher não jogar. Como na infância ao se jogar vídeo-game e diante do intransponível desafio: “-Quem foge vive para lutar de novo”. A idéia do “All that you can’t leave behind[4]” mesmo, de que só é meu aquilo que eu posso abdicar.(Já falei disso outrora por aqui.) E a solidão das pessoas é minha, o medo do escuro, as dúvidas e a inconstância de quem muda de idéia como quem muda de cor. Do meu monocromatismo só me é possível ir de um extremo ao outro, há tempos perdi o meio termo das coisas, o meio do caminho que tinha uma pedra, o meio que justifica o fim. Não sei escrever “Talvez”, ainda que durma abraçado de conchinha com a dúvida, apenas conheço o não e o sim, a verdade ou o silêncio(fiz um curso à distância há três primaveras para desaprender a mentir), a folha em branco ou a poesia da alma (a vida é escrita em definitivo e eu gosto é do rascunho e das coisas rabiscadas), na ausência da outra metade, só me resta ser por inteiro.[5]
     As tradições que eu inventei para traduzir a minha busca incessante pelo novo. Talvez isso explique o adjetivo inconstante em mim: o desejo pelo novo talvez demande desequilíbrio para viabilizar a concepção de um reequilíbrio. A tradição, numa atitude antropofágica, implodindo-se hoje para construir novos horizontes amanhã.
     Como imprimir acertos em um cotidiano usurpado pelos erros de um passado que não me foi possível viver? Sobrevida outrora, das cinzas e escombros se faz algo novo. Por se dar um novo sentido à matéria das coisas, pela mudança ocorrida no observador e não no objeto. A grande revolução do mundo e da humanidade acontecida no lado esquerdo do peito, em um coração que aprendeu a pulsar e (de)bater(-se) sozinho e em silêncio...









[1] Engenharia hawaiiana, Dom Quixote...
[2]  Engenharia hawaiiana, ... de la Mancha.
[3] Você também, aquela música que fala tudo sobre a “paixões cruéis desenfreadas”.
[4] Você também, o disco de 2000 que fala sobre perdas e finitudes.
[5] Algumas notas ficam nos parênteses e nas entrelinhas.







domingo, 11 de abril de 2010

Do Selo comentarista excelente...





Eu nunca fui muito afeito com os nomes de batismo...









“Muito prazer meu nome é otário
vindo de outros tempos, mas sempre no horário
peixe fora d’água
borboletas no aquário...”


Tudo bem, todo mundo já sabe que eu perdoei minha mãe por isso. Acho que ela acreditou  naquela história do “Meu filho vai ter nome de santo...”, só não ouviu a parte do “...quero o mais bonito...”Quando vi o selo “Comentarista excelente”, sem saber que eu era isso para alguém, estranhei o nome e achei que caberia um adjetivo outro que poderia vir a ser mais conveniente. No entanto, os sentidos é que me apetecem, não a grafia em si,(mas a filologia é quase uma poesia!) e o selo veio de alguém com quem eu concordo muito, alguém que escreve de uma forma que me deixa sem muitos adjetivos, mas com muitos afetos. Minha primeira amiga oriunda da virtualidade da “blogosfera”, meio que deliberadamente, optamos por nos conhecer assim, uma vez que poderíamos nos conhecer “...de outros carnavais, com outras fantasias...”... (vou ser breve, “Quem sabe um dia eu escrevo uma canção  pra você?”)

Aí eu ganhei e não sabia direito o que era e o que fazer. (Na verdade, nunca soube isso sobre quase tudo.) Mas eu percebi que tinha uma missão e lembrei de um dos meus grandes Mestres (intelectual, espiritual, musical, filosófico, educacional) que dizia citando uma tal de Clarice: “A vida é uma missão secreta”. Ele fez de sua dissertação de mestrado um poesia e da tese de doutorado elevou isso ao quadrado e para defendê-la, fez um show, algo representativo de sua passagem pelo mundo. De fato, merece um respeito maior e uma admiração imensurável, pois ele fez dentro da academia o que muitos só conseguem fora, ele fez valer a linguagem poética na seara da linguagem acadêmica. Acho que só tenho um fragmento a dividir com vocês aqui.  Olhem na plataforrma Lattes, biblioteca da UFC, olhem o livro dele, aqui é só um fragmento:


Depois, veio alguém que eu cito sempre ao falar do homem “Macho alpha”(poder aquisitivo da classe dominante, físico da classe operária e a capacidade intelectual para discutir a relação entre os dois primeiros). Brilhante! Todos riem quando eu a cito! Acho que por acaso e curiosidade, eu cliquei e cheguei lá e me rende(u) boas leituras e bons diálogos. Acho que “comentarista excelente” deve ser alguém que nos dá diálogos excelentes. Não sei ao certo, mas ela me faz sentir uma saudade positiva da academia, e é explícito que eu não guardo muitos afetos das idéias da Universidade. (Até quem me apetece não sabe disso). Enfim, hoje é domingo e eu não vou divagar muito(se não perco o Faustão, Gugu, João Inácio Jr.. Mentira estou assistindo literalmente a “Filmes de guerra, canções de amor”)


Por último e não menos importante, o meu vizinho. (Precisamos no mínimo três pontos para um plano, acho que por isso temos que escolher três pessoas para o selo.) Aqui do lado, ele percebe as levezas e sutilezas no caminho, que às vezes, eu só vejo a vontade de voltar pra casa. Por isso ele é o cronista e eu o chato. Acho que ele vai ser aquele cara milionário(quando tiver um milhão de amigos e receber 1 real de cada um), transborda carisma até quando escreve e os adjetivos que ele carrega precisam ser lidos por você e não descritos por mim.



Ps – Há três meninas, “três Marias” que me aparecem por aqui e que já me renderam sorrisos sinceros, ainda estou brincando de conhecer...
Eu só podia citar três pessoas, mas tenho um sério problemas com figuras de autoridade... Se bem que no “post scriptum” há uma brecha:


Ps2- Ela chegou ontem, depois exponho nossos filhos...





quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enquanto ela não vem...







Enquanto ela não vem
qualquer história
é a história certa
para o livro dos erros

As noites são em claro
os dias fora do páreo
Todo acaso é um sinal,
frases sem ponto final
muitas falas, nenhum diálogo

Falta muito para a poesia
de minha vida(parte dois?)
virar a prosa de meus dias(?)

Enquanto ela não vem
esses versos são sem rima
não são nem versos brancos
São páginas em branco
de uma vida,
meia vida(?)à procura da outra metade(?)
Parte dois ou partido em dois?

A solidão das pessoas
as paixões sem par
o medo de ser sozinho
versus o medo de amar


São divagações
que por enquanto(ela não vem)
sou de vagas ações
sou de ruídos em uma guitarra
(Pra que tantos pedais se eu não sei onde pisar?)
sou notas soltas ao piano
voz sem melodia
pontas soltas ou nó(s) cego(s)
ao acaso
à toa
à deriva
ao léu
à espera
Enquanto ela não vem...









domingo, 4 de abril de 2010









Ainda tinha na prateleira
um pouco da falta que ela me faz
Sobrara quase nada
e nada importava
nessas horas, os dias comportam a eternidade
as inversões de caminho
que eu poderia ter feito
ainda me tra(i)riam
ao mesmo lugar
com outras dúvidas
mas sem as mesmas respostas









quinta-feira, 1 de abril de 2010










Ah, se as mentiras em que acredito fossem verdade...















quarta-feira, 31 de março de 2010

Das indagações sobre do que era o blog...




Indagado sobre do que era o blog “Vida Parte Dois”, parei-me na resposta e automaticamente soltei;”-É sobre prosa e poesia.” Ainda tentei consertar falando que tratava da escrita, meta-escrita, usando a escrita para falar da escrita... Antes mesmo de terminar sabia que havia perdido um leitor.
Segundos depois comecei a pensar que “Vida” era também uma unidade de tempo e que algumas coisas eram contadas não em segundos, dias, décadas, mas sim em vidas. Quantas vidas passaram até essa idéia do texto?
Minutos depois fui tomado pela idéia de que “Vida Parte Dois” era meio que um “Dark side of the moon”, no sentido de ter como temática as angústias humanas. À minha forma, ao meu ver, à minha maneira, dentro dos limites de um lápis e uma folha em branco, pois, tenho plena ciência de que “Vida Parte Dois” está algumas vidas aquém do “Dark side of the moon”. (E agora vida já virou unidade espaço-tempo.)
Horas depois me veio a idéia de que havia o intuito de fazer resignificações, expandir campos semânticos, como se fossem neologismos de sentido. Como se isso por si só já valesse toda e qualquer labuta. Como se o sentido fosse não ter sentido, a fim de que assim, este pudesse ser criado.
Dias passaram por mim e me deparo sem resposta ainda. Poderia me valer de que a escrita não demanda nenhuma demanda. (Por um instante pensei que as crônicas de Jornal tinham como função social forrar gaiolas.)No entanto, não ter demandas, não ter a quem responder, caminhar rumo ao nada para satisfazer o desejo de caminhar, sem dúvidas com o futuro ou dívidas com o passado; isso tudo cabe no campo semântico de liberdade. A minha escrita é um exercício de liberdade. É a epifania de meu dia, é a melodia em meu canto, as cores da paleta de minha vida. Tenho aqui mais que respostas, eu tenho interrogações e reticências( e um monte de parênteses). Eu tenho a chave das portas, não da percepção, mas dos sentidos( e do sentir), reinventados, reciclados, renovados, revelados. Eu tenho  prosa para falar da poesia de escrever. Não é quase nada, só um caderno aberto de uma vida que se diz um livro aberto, mesmo que aos olhos alheios não se veja assim. São os meus personagens em histórias alheias, em uma escrita minha. A fantasia começa quando se coloca qualquer coisa em um papel, é tirar do concreto da memória e das idéias e colocar no abstrato da escrita...






domingo, 28 de março de 2010

Das memórias (ou “desmemórias”)...

       Abdicar de um sonho é mais difícil que tentar concretizá-lo. Abdicar é perder enquanto quem tenta efetivá-lo encontra a possibilidade de não ganhar. Caminhar sem aquilo que nunca tivemos é mais fácil que continuar deixando para trás o que nos pertenceu. Eu nunca tive asas (mesmo que outrora tivesse aprendido a voar) o quão maravilhoso seria minha locomoção viabilizada por asas. No entanto, não ter mais uma das pernas castraria a dinâmica de meus movimentos. Perder é uma dor maior do que não ganhar. Deixar para trás é bem mais fácil que seguir em frente. Esquecer é uma tarefa árdua, um exercício constante para não lembrar. É mais fácil contornar os problemas de se ter uma fraca memória que os ônus de se ter uma boa memória. Para aquela, notas e anotações podem dar cabo às intempéries, enquanto para esta há apenas o fardo e o pesar como quem anda mancando por ter uma ferida aberta. Cada passo é um movimento contrário à tentativa de esquecer. Deixar à cargo do tempo é como delegar ao acaso a responsabilidade pela vitória. Boa memória não é atributo, é castigo. É um doença auto-imune insistindo em sempre cutucar feridas. Nesse contexto, o vazio se apresenta como um horizonte com mais cores em um mundo em que ter boa memória implica em daltonismo.

sexta-feira, 26 de março de 2010





Cabeça aberta

pés descalços

coração na mão



 



O primeiro passo

a última dose

a cabeça cheia e

(a página em branco)

e o coração vazio



 

No lugar certo,

na hora certa,

já não é mais a pessoa errada

uma palavra para quebrar o silêncio

e o destino já não pertence

ao acaso



 



Alheio à terceira do plural

Perdido ou um Achado?

Ser mais do que já fui e menos do que serei

Ser é uma palavra muito forte para

estátuas de ar

Estar ou não estar, eis (minh)a questão

a dúvida é um monolito para o movimento

e saber que não quero estar aqui

me abre as portas para qualquer lugar

 
 
 
 
 







domingo, 21 de março de 2010

Da indiferença II




Não tem o que dizer
e insiste em não ouvir
o que haveria a falar
Só o silêncio importa
Qualquer palavra é um atentado
à solidão do silêncio
A escrita deve ficar
em silêncio, em gavetas,
escondidas em velhos cadernos
A história já nasceu póstuma
Deixemos que os necrófilos a registrem
enquanto nós a escrevemos



Há um segredo a ser silenciado
contá-lo é assassiná-lo
Deixe que morra a curiosidade
e floresça a indiferença
do lado esquerdo de cada peito
escondido no canto escuro de cada quarto





quarta-feira, 17 de março de 2010

Da indiferença I







Desinteresse pelo alheio,
auto-misantropia
A construção do próprio entorno
ou as idas sem retorno
em caminhos sem volta



Pausa para um café
ou uma bala que não me toma tempo
Sem segredos
ou mentiras
Eu apenas não quero saber
Sem respostas,
da curiosidade não entendo
Barba por fazer,
blusa desbotada,
calça rasgada, tênis velho
Eu não mendigo a aprovação de outrem



Ah,há em mim um espelho
apenas a devolver o que lhe é dado
Não esconder nada,
mas a cultivar o silêncio




Alheio ao desinteresse do outro
indiferença é um exercício de “desimportância”
e desapego
Bobagem, besteira, nada não,
deixa pra lá,chato, sem graça, entendiante,
 insignificante e ignorado
A escrita do não em meu cotidiano
É só um jogo de palavras
o sentido é (vi)ver o mundo buscando um sentido
é fim de jogo, fim da linha, fim de papo