quinta-feira, 7 de junho de 2018





Então, o que nos sobra
quando se chega até aqui?
De caminhar para lugar nenhum
só para não estar no mesmo lugar
e não ser amanhã
o mesmo de ontem
ou uma cópia de hoje



Um novo sonho para um velho coração
ideias novas para projetos antigos
a criação concebendo o criador
numa vida e obra de quem sobrevive
mais um dia
mais uma vez


Um movimento para desejos inertes
a gota d`água no deserto
falta um pouco
mais uma volta
e a saudade já não alcança a memória
o que sobrou de você por aqui
que já não possa ir?
Inventamos o impossível
como um álibi para a distância
traduzida em ausências
Há nas palavras um esforço
para que se ultrapasse essa barreira
e que se crie uma chance
de que alguém do futuro
possa falar à alguém do passado
Ainda que todos já saibam
o que viria  ser dito 







domingo, 6 de maio de 2018

Do que finca e finda...





O que segue de quem fica
o perdido no meio do caminho
quando se encontra o seu lugar
a lacuna entre o que eu queria ser
e aquilo que sou
o abismo do futuro de ontem
ao que foi passado agora





Aquele texto, naquele email, daquele verso
a mesma coisa (inter)dita de tantas formas
e maldita várias vezes
Talvez o amor seja mesmo uma sinfonia
de silêncios e vazios
num consenso para instrumentos diferentes
tocarem a mesma nota
Consonantes de uma forma ímpar
convergindo para o mesmo ponto de fuga
em mais uma esquina entre a distância
e o que fica de quem me segue






sexta-feira, 2 de março de 2018







Da arte de se tornar o que se é
de se permitir não ser mais o homem do passado
de fazer valer(-se) mais (em) cada silêncio
e prescindir mais das palavras


Deixar vir à tona e não mais ir à toa

De quem eu era
àquele que eu quero ser
as lacunas, os hiatos, as distâncias
os vazios que tentei preencher
hoje memórias vazias
vagas, desbotadas de um passado
de alguém
a se esquecer


Desatando os nós
amarrando as pontas soltas
Muito tarde para um café
e muito cedo para um vinho
O sol se pôs para você
mas me acompanha até o limite do meu desejo
alguns quilômetros, alguns anos
algumas palavras
Distâncias já são maiores que a saudade


O sol se pondo
como um ponto final
A noite se impondo
como uma próxima página
A noite que vence o medo
de se estar sozinho
à noite vem sem medo
de ficar comigo
Deixando as dúvidas por dívidas
com essa história
de uma noite
ou de uma vida




sábado, 20 de janeiro de 2018




Alguns poemas seguiram
alheios a este caderno
e além de qualquer registro
ou tentativa de cercá-los
e fazê-los cair no papel
ou na tela anônima de algum leitor


Será que se perde a poesia em mim
ou eu que me perco e a deixo ter fim?
Será que peco por não saber se o pecado
é algo certo ou errado?
Ou se no caminho em que me encontro hoje
não é mais do mesmo em que me perdi ontem?
Será que os afetos dos mais distantes
são os que mais me faltam
no cotidiano com tantas vozes
que nada me falam
(e às vezes me calam)



Teria eu pelo avesso
criado o espaço
para que longe
fosse só uma palavra
Vazia de significado
para que nela coubessem tantos sentidos

A distância que nos une
no silêncio rompido por um verso
um pensamento perdido
de um sentimento incerto
uma ideia vaga
uma saudade incerta e dispersa
menos do que foi
e mais do que poderia ter sido


Alguns anos passaram
por essas páginas
fragmentos de histórias
que eu vivi ou inventei
ou inventei de viver
personagens meus
 disfarçados de alheios
com sentimentos impossíveis
de acontecer em mim
na ausência dessas folhas em branco












sábado, 20 de maio de 2017





Me acolhe
e escolhe ao meu lado
como abrigo
tu comigo, eu contigo
eu consigo
ser mais que ontem
e ser por inteiro
ser meio a meio
metade minha em ti
e outra metade por ti





Me escolhe
e acolhe
do teu lado
esse amigo
contigo eu consigo ser mais
que o vazio que me habitava
em meio aos dias
antes de ti






terça-feira, 25 de abril de 2017





Um gesto, um sorriso
um olhar, uma ideia
tudo aquilo que antecede
a palavra



um risco na folha
um rabisco num quadro
um click, uma face sem rosto
um selfie, cem posts
tudo aquilo a que padece
a imagem



uma distância, um sonho
um pacto, uma escolha
uma saudade entre grades
e tudo aquilo a que não cede
o desejo




sábado, 1 de abril de 2017

Guimme shelter




Aos refugiados...




Anseio, receio
um rosto colado ao seio
Angústia, degusta
o gosto salgado do beijo
Palavras doces antes que eu fosse
além do fruto proibido
e do desejo reprimido
nesse Éden invertido
Para além das nossas fronteiras
a guerra está “apenas a um tiro de distância”




Trocaram as janelas por espelhos
e há quem crie um infinito em si mesmo
com grandes mudanças e revoluções em segredo
O silêncio é a medida do mistério
em narrativas com espaço pra quase tudo,
mas se diz quase nada
Nas lacunas das possibilidades
do que podemos fazer
se sonha acordado com o futuro
e se fecha os olhos para o presente
onde os meios de se dizer algo
se confundem com os lugares de fala
e abundam videntes do passado
e historiadores do futuro






A dor alheia é estrangeira
refugiada e sem abrigo
refugada sem amigos
regurgitada em castigo
Espaço estranho
invisível até o instante
que incomoda e ameaça
Traz o medo e atrai o Não
O interdito em um novo país
a ser invadido por órfãos
sem paz, pátria, pais ou raiz
A guerra é um bilhete só de ida
à miséria
E nem todas as batalhas são travadas
do lado esquerdo do peito
Para alguém em nossa fronteira
“apenas a um beijo de distância”