segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Não teria verso que rompesse o silêncio daquele coração ou surto de coragem que arrancasse algum texto daquela gaveta. Era o segredo mais oculto, a carta nunca remetida, a história sem fim em um texto nunca lido nem por quem o escreveu. Apenas escrito sem mesmo ser revisado para que nunca fosse lido. Um rascunho em palavras que era representativo de si. Ela guardava seus textos como quem guardava a si mesma. Os textos mais belos permaneceriam desconhecidos tal como ela permaneceria. Escondia suas palavras do mundo e assim se escondia também. Em meios aos sorrisos automáticos, as noites produzidas em série, as pessoas pré-programadas, os relacionamentos protocolados... haveria alguém que pudesse vê-la além disso?     Haveria texto a ser escrito depois das reticências?



Por algum instante alguém ousou invadir e arquitetou roubar uma das chaves de tal gaveta. Equívoco primário e surpresa ao descobrir que algumas coisas se guardam
a sete chaves. Pretensão demais em acreditar que algo além da superficialidade havia sido dito. Falar cansa, talvez por isso ela cante e escreva o que ela teria a dizer. “Teria a dizer”, como possibilidade abandonada e não “ter a dizer” como vontade a ser concretizada. Só quem desconfia da força do silêncio saberia o que ela tem dizer.



E das sete chaves ela fez os muros e as grades, e do silêncio ela fez um hábito. Um exercício diário de quem se fortalece com a própria solidão. Havia um riso cada vez que pensava nas pessoas que se alentam das solidões alheias. Sozinha ela tinha um exército ao seu lado e um campo de batalha no lado esquerdo do peito. 




4 comentários:

  1. É sempre bom ler os seus bons textos.

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  2. Provavelmente, foi o texto seu que mais gostei.
    Muito bom!

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  3. Eu achei muito bonito a forma como você usou a 3a pessoa do singular (e não do plural!).
    Muito legal.
    Olha isso...
    Não gosto muito da melodia, mas a letra é bonita, veja:
    "Maybe the face I can't forget.
    A trace of pleasure or regret
    Maybe my treasure or the price I have to pay.
    She maybe the song that summer sings.
    Maybe the chill that autumn brings.
    Maybe a hundred different things
    Within the measure of a day."

    (...)

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  4. Fico feliz por se ver alguma beleza na minha 3° pessoa.


    "She" nesse contexto me fez lembrar uma música do Dylan:


    "If you see her, say hello, she might be in Tangier
    She left here last early spring, is livin' there, I hear
    Say for me that I'm all right though things get kind of slow
    She might think that I've forgotten her, don't tell her it isn't so..."

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Rupturas no silêncio...