domingo, 19 de fevereiro de 2012

2+2=5




2+2=5


Porque talvez nas minhas contas
sempre caiba mais um
Às vezes é só uma conta errada...
Pouca matemática e muita poesia
Do frio e calculista
ao quente e letrista
Há muita razão
em se permitir
que a emoção faça todo o sentido do mundo


Há número irracionais
pessoas legais vivendo na ilegalidade
ou com liberdade de se permanecer em silêncio
Há números inteiros
amores-perfeitos em histórias imperfeitas
Números naturais para dividir uma alma em duas
uma história escrita à duas mãos



Há dias em que 19 não chega ao 20,
chega aos 30 e não chega aqui



terça-feira, 31 de janeiro de 2012







Deixemos as vontades à vontade...










quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

         



 Não sou muito afeito de multidões. Mais de dois pra mim é multidão. As pessoas é que me apetecem, a atenção para todos para mim não serve para ninguém. Eu me valho do clichê do velho Zappa: “qualquer lugar, por qualquer motivo, a qualquer hora, o importante são as pessoas” e acabo por só conseguir ver as coisas na maioria das vezes e do tempo por aí. Por vezes não é a música em si, é o músico que a interpreta, não é o beijo em si (ou em mim), mas sim a pessoa que beija.  No nosso diálogo não quero música de fundo, não quero som de barzinho(deixa que a gente inventa a trilha sonora pra vida), quero ouvir você e ler o seu olhar. Inventem adjetivos para isso, coloquem três décadas a mais no meu RG, mas eu ainda prefiro assim. Prefiro ser por inteiro ou nunca ser a ser pela metade (ou quase ser). Eu perdi o meio termo das coisas, se eu tiver essência ou alma ela carrega o carma e o dna do adjetivo exagerado. Se no instante em que se acorda estar junto não vejo espaço para algo que não venha do outro ao seu lado. Eu não quero perder nenhum gesto, nenhum olhar e nenhum sorriso, até mesmo por lembrar que os sorrisos acontecem no mesmo lugar onde ocorrem os beijos ...





              

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012







‎"Assassinos vamos matar todos eles"
Provérbios 171, Art. 121, § 7, versículo 3










sábado, 21 de janeiro de 2012



Deus inventou o ateísmo,
ainda que por omissão.






sábado, 14 de janeiro de 2012

Os livros que eu não li
os discos que eu não ouvi
São as histórias que eu conto
são as histórias que eu canto



A arte é o desejo do que poderia ser
a arte dilui a impossibilidade do proibido
desfaz laços sociais
amarra pontas afetivas



Um fim em si mesma
um meio para algo que não tem fim
É imortal por se alimenta de vida
Desejo, logo existo.
O poeta é um meio que a poesia
encontrou para ser escrita
(Não mais e sem mas)



Traduzir o inominável
nomear o intraduzível
A arte é só um chamado
um convite, um sinal
uma chamada no meio da noite
um grito de silêncio
para que o desespero vá embora
e para que a esperança do retorno
volte com você mais uma vez







segunda-feira, 26 de dezembro de 2011





Preciso não saber
(prefiro não saber)



Queria saber mais
queria dizer mais
quem sabe um pouco mais
pelo menos
Queria viver mais
você
queria um pouco mais
mas...


Prefiro não ter escolha
cometer você
não era erro aos olhos certos


Prefiro não viver(assim)
a ter que matar
o que me enche de sentimento
e me esvazia de sentido


Por vezes tudo que eu queria
era saber (o) que não precisava saber
saber o que (como e quem) esquecer
saber o que (e quando) silenciar


Não há resposta
quando a pergunta é o silêncio
solidão não é o fato de estar sozinho
solidão é o nome
que se dá à sua ausência








quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Das 'palavritas'...




À ventura das palavras
que se encontram nas linhas
e se perdem nas entrelinhas:
a aventura das palavras






sexta-feira, 2 de dezembro de 2011





Não sou capaz de responder
por mim mesmo como futuro
Talvez recrie o que me foi passado
pra trás
Como um sonho
que não se sonha acordado






Talvez releve e me torne leve
leve o bastante
para que meu futuro
não me condene
ao passado




Eu, que outrora fora a gota d’água
à agora de fora
uma gota d’água
no leito (de morte)
de um rio que desemboca no mar
que desencana de amar




quinta-feira, 24 de novembro de 2011







Ela constrói castelos
com as 'pedras do meio caminho'
e com a areia do fundo do poço...








quarta-feira, 23 de novembro de 2011







Álcool não cicatriza feridas.








segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sabotagem




Sabotar:Danificar propositadamente,  instalações inimigas para impedir, retardar ou interromper seu funcionamento. Boicotar.


Figurado:Dificultar ou prejudicar uma atividade por meio de resistência.



Sabotador: 1: Sabota a dor.




Ps(post scriptum)- "Sabotarte"

Ps2- Teria como escrever textos só com o 'post scriptum'...















terça-feira, 8 de novembro de 2011

     Meus óculos quebrados são como uma cicatriz de batalha. Um dia estendi a mão a uma pessoa caída e ela me respondeu com um tapa endereçado ao meu rosto. Por esquiva, por reflexo ou por acaso ela só encontra meus óculos. Eles voam e levam junto meu intuito em ajudá-la. Sem meus óculos era eu quem precisava de ajuda e a outra face a ser oferecida seria minha ausência.  

  
     No meio da multidão, no meio da confusão, no meio da história, o cavalheiro havia caído do cavalo e eu estava sozinho a procurar e defender meus óculos de um pé cego que esmagasse a minha possibilidade de visão. Tomando a necessidade como mãe da criação (já ouvi dizer que o MacGyver era o pai) começo a tatear o chão, movendo as mãos em movimentos circulares na expectativa de cobrir uma área maior. (Não, eu não pensei em ficar olhando o chão até encontrá-los.) Antes que eu também começasse a precisar de alguém me estendendo a mão, minhas mãos encontram meus óculos. Volto a enxergar e consigo ver que parte da lente havia sido quebrada, parte da lente ficara naquele chão, como parte do meu gesto de compaixão (pois o gesto com paixão) havia sido quebrado por aquele tapa.



     A menina ao chão derrubada por algum terceiro alheio aos limites e às limitações do outro e indiferente à sua dor viu na mão que eu estendia a possibilidade de mais um golpe ou o espaço para revidar a agressão sofrida. Ela havia vingado a queda, ela levava mais alguém ao chão e estava quite com a história. Ela seja por reatividade, seja por vingança, seja por materialismo-dialético-monocromático-egocêntrico, seja por ser um oprimido reagindo contra o opressor (Opressor: leia-se tudo que estiver de pé, tudo que não for oprimido), seja por medo de mais um golpe, viu na mão estendida por mim a mão que lhe havia agredido ou mesmo um simples “desconta lá”.Quem pagou a conta? Meus óculos que resignadamente sempre foram gentis e compreensivos com as limitações e fragilidades alheias. Inocentes surpreendidos e punidos por permitir que meus olhos ao olhar por alguém não vissem a possibilidade de não sermos vistos com bons olhos.











sexta-feira, 4 de novembro de 2011

(...)



        Dos dias a se lembrar com coisas a se esquecer, eu vou falando como dizia Belchior: “Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei, jovem que desce do norte...”




A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas,
coisas novas pra dizer
A minha história é ... talvez,
é talvez igual a tua,
jovem que desceu do norte
que no sul viveu na rua

e que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
e que ficou apaixonado e violento como, como você
Eu sou como você.
Eu sou como você.
Eu sou como você
que me ouve agora.
..

Belchior




... e por aí vai e daí vem. Eu não me esqueço do dia em que dormindo no aconchego do meu lar e fui expulso, sem aviso, sem cerimônia, de repente, de uma vez, como se estivesse fugindo ainda que eu quisesse ficar. Lembro-me da humilhação e da exposição degradante, das luzes ofuscantes, dos risos, da exposição da minha nudez e não bastasse a agressão física me intimando ao choro.

     Havia livros sobre opressão e ditadura, mas ninguém percebia a tirania que se fazia naquele momento. Que crime eu havia cometido para sofrer aquela pena? Fui tirado da minha zona de conforto, meu mundo havia desabado, a vida que eu levava havia sido usurpada e eu não tive o espaço nem mesmo de escolher. Tirado à força, expulso por um lado e puxado para fora. Diálogo? “-Calma, eu posso explicar!” O que é isso? Parecia que eles não falavam a minha língua.

     Pela primeira vez eu sentia o que era fome e antes que pudesse esquecer da dor que eu sentia ainda havia o frio. Eu sinceramente achava que a morte era mais amena que aquilo. Quão intolerante e impiedoso era esse mundo novo! Admirável mundo novo! Até então a hospitalidade rimava com hostilidade. Malditos bárbaros! Eu não pertenço a essa cultura!

     De tanto ouvir que “nada é tão ruim que não possa piorar” comecei a acreditar nisso, mas não desacreditava que mesmo estando pior ainda era possível mudar. No meio daquela “via crucis” mal sabia eu que encontraria a mulher da minha vida. Ainda não sabia que o amor havia se escondido no meio daquela revolução ou daquele golpe na existência (como alguns devem preferir chamar). No meio da minha fome havia aquela mulher a me dar colo e abrigo, a velar meu sono e a conjugar o verbo amar e a me ensinar a conjugá-lo. Pela primeira vez alguém me amava não pelo que eu tinha, até mesmo pelo fato de eu não ter nada além dessa história de amor.

     E passaram se alguns anos até que eu percebesse que nada é tão ruim que não possa piorar e ainda assim não possa mudar. O que era visto como crise naquele passado era apenas uma mudança. Traumática? A psicanálise que o diga! O meu desespero e as angústias daquela hora eram alentadas pela minha inocência em não perceber que aquele fim do mundo era na verdade apenas o começo da história.










     

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O passado é uma massinha de modelar. Às vezes para lembrá-lo ou para lembramo-nos é preciso uma criança a brincar com ele e com toda a inocência que a ele é inerente. Daí se lembra que ele existe e que não se tem mais tempo ou idade para brincar com massinha de modelar ou se misturou todas as massinhas de todas as cores e se formou um bolo cinza e indiferenciado, ao passo que nós nos tornamos indiferentes.


Dizia um iluminado ( da eksistencia) que o passado é plástico e maleável pra quem se sabe fazer flexível. Não se demanda terapeutas e poetas ou poetas-terapeutas para conceber isso. Uma vez que a memória é balizada por afetos e sentidos não se pode guardá-la de uma forma estanque e impessoal. A forma como se vê muda junto com o observador. Ao se olhar de um ponto mais alto agora os grandes problemas de outrora parecem “formiguinhas” para quem hoje aprendeu a voar.



A roupa que não nos serve mais e que se doa ou se dá de esmola, pois há quem se alimente do que é passado ou do que fomos: passado. Há histórias narradas só com verbos no pretérito, seja ele imperfeito, perfeito ou mais que perfeito, ainda que se faça de conta que não se enxerga os personagens do presente ...






terça-feira, 18 de outubro de 2011

'Message in a bottle...'



E entre o verso e a melodia havia o silêncio... Ainda que se transbordasse em vontade de escrever e desejo de cantar havia algo maior em um acordo tácito da sorte,do acaso, do desejo e do destino: o silêncio. Naquilo que ela não diz agora, espera para dizer depois, espera amanhã chegar pra ver se diz, mas não diz hoje e espera amanhã pra ver chegar.


Como saber se não foi dito, desdito ou maldito? O silêncio é pai da ambiguidade e aqui nessas horas não há mais o benefício da dúvida. Às vezes a tecnologia vai de encontro ao encontro: não há telefone, telegrama, sms, sos, bilhete, carta, mensagem, Messenger... que me valha o encontro com seu  sorriso. Esses “meios” de comunicação eram pra servir ao fim que seria o “encontro” presencial. No entanto, tais meios foram hipertrofiados e viraram fins em si mesmos. O mais simples segue a lógica da distância e da representação do desejo de estar perto; a voz no ouvido parece ter se tornado obsoleta; o “cara à cara, beijo à beijo” , face à face é pela realidade virtualizada e emulada por um “face” impessoal que se coloca como denominador comum às pessoas. Mundo virtual: um grande “ki-suco” da vida! Adicione a cor e o sabor artificial que você quiser e dilua bastante, bastante, bastante mesmo...
Há sentimentos que não cabem em 140 caracteres, há coisas que para serem faladas não podem ser ditas e pra essas coisas parece nunca haver espaço e tempo. 



[E entre a minha palavra e a tua havia o (nosso) silêncio...]







segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Não teria verso que rompesse o silêncio daquele coração ou surto de coragem que arrancasse algum texto daquela gaveta. Era o segredo mais oculto, a carta nunca remetida, a história sem fim em um texto nunca lido nem por quem o escreveu. Apenas escrito sem mesmo ser revisado para que nunca fosse lido. Um rascunho em palavras que era representativo de si. Ela guardava seus textos como quem guardava a si mesma. Os textos mais belos permaneceriam desconhecidos tal como ela permaneceria. Escondia suas palavras do mundo e assim se escondia também. Em meios aos sorrisos automáticos, as noites produzidas em série, as pessoas pré-programadas, os relacionamentos protocolados... haveria alguém que pudesse vê-la além disso?     Haveria texto a ser escrito depois das reticências?



Por algum instante alguém ousou invadir e arquitetou roubar uma das chaves de tal gaveta. Equívoco primário e surpresa ao descobrir que algumas coisas se guardam
a sete chaves. Pretensão demais em acreditar que algo além da superficialidade havia sido dito. Falar cansa, talvez por isso ela cante e escreva o que ela teria a dizer. “Teria a dizer”, como possibilidade abandonada e não “ter a dizer” como vontade a ser concretizada. Só quem desconfia da força do silêncio saberia o que ela tem dizer.



E das sete chaves ela fez os muros e as grades, e do silêncio ela fez um hábito. Um exercício diário de quem se fortalece com a própria solidão. Havia um riso cada vez que pensava nas pessoas que se alentam das solidões alheias. Sozinha ela tinha um exército ao seu lado e um campo de batalha no lado esquerdo do peito. 











As coisas são simples,
a gente (e há gente) que às vezes complica.










segunda-feira, 3 de outubro de 2011








Curso de oratória é para os fracos,
os bons exercitam o silêncio.









segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Resetar os protocolos

Como seria se a vida quando desse erro bastasse resetar os protocolos? No entanto, isso demandaria de mim a coragem suicidada e a covardia romântica de acreditar em reencarnação. Por um lado até paradoxal ou por outro apenas um desdobramento lógico. O suicida dar cabo à própria vida por acreditar que encontraria um fim para seu sofrimento. Se ele acredita que a existência transcende a vida bastaria apenas reiniciar o sistema cada vez que ele travasse.

A morte como solução para a vida nunca me pareceu tão simples! No entanto, ainda me é complicado acreditar que depois do fim é que estaria o começo. Não sei a vida é chegada a outros sinais de pontuação além do ponto final. Colocar vírgulas ou reticências no texto seria como conceber histórias sem fim e acho que sobrariam páginas e faltaria espaço para novas narrativas nesse mundo. Ainda me pergunto se a dúvida sobre vida após a morte seria da mesma ordem das dúvidas fetais se existiria vida após o parto. Isso sempre descontruía o argumento de que ninguém voltou do outro lado para contar ou provar como é que é (ou como não é).

Não que eu não acredite que não exista. Eu fico com o benefício da dúvida e abdico da dívida para conquistar a vida eterna. No entanto, se for acreditar em algo: eu acreditaria que não existe. Eu acreditaria no nada e no vazio. Quaisquer hipóteses diferentes seriam eufemismos para quem prefere desejar o nada a não ter nada para desejar. Sem dar muita densidade a isso. Eu desconfio da superioridade desses grandes valores em que a mediocridade parece se camuflar. Não há desesperança ou pesar por isso; não há dor ou medo. Se eu estiver certo, não gostaria de viver o breve tempo que temos imaginando, loteando e negociando a “pós-vida” que não teremos.

Se eu tivesse a fé para acreditar nisso seria também louco o suficiente para não hesitar diante do suicídio. “Deus é pai, não é padrastro” tudo sabe, tudo entende, tudo perdoa... ainda que me fosse proibido abdicar do meu único bem ( e no ensejo hipotético suicida, meu maior mal) eu estaria perdoado previamente pelo amor infinito e incondicional e teria a possibilidade de começar de novo ou ficar no “stand by” enquanto arrumam a casa.

Se por um dia ou algum dia eu acreditar em algo além da miséria da nossa realidade será o último dia de minha vida. Nesse meu surto de fé teria a humildade de reconhecer as limitações do sistema operacional vida e seu hardware precário “Homo sapiens sapiens” e resetaria os protocolos.