Por vezes me é inevitável o flagrante de encontrar um exercício válido em transitar por minhas idéias. Pretensão minha achar que eu sou o possuidor e não o possuído de tais idéias. Não apelo à metafísica para uma resposta ao processo criativo, prefiro o viés romântico de que fui instrumento para tais palavras e não o contrário. (Soa melhor essa perspectiva aos meus ouvidos.) Ratifico que a obra é maior que o autor, a imortalidade conferida ao criador é uma extensão generosa de um adjetivo inerente a sua o obra e criaturas.
Por algumas outras vezes observo como me fiz digno do adjetivo imaculado , por não ter dívidas pretéritas ou a vencer em um futuro imediato ou remoto. O meu livre-arbítrio concebe a minha liberdade de crença na descrença. O ceticismo não adquire cores niilistas, mas se for para ter fé eu acredito em Deus e que ele está morto.
Desta vez, partindo desse ponto, diante da insubistência do meu credor minha dívida prescreve. Já não tenho de usar o agora( meu maior “presente”) para quitar dívidas de vidas alheias que são minhas segundo a crença de terceiros que não assinam suas próprias obras. Meu espírito se faz livre, de uma forma que poucos[i] associam as palavras espírito e liberdade, de tal modo que não cabe em mim e eu não sou cabível e não caibo em nenhum espiritismo que me ousa cobrar juros e correções de uma dívida que não é minha.
Mais uma vez um segundo desdobramento desse pressuposto é o consórcio cristão pela Terra Prometida. O agora e o presente são convertidos em esforços e sacrifícios para um futuro que eu não sei quando serei contemplado. Abdico da vida por uma pós-vida? Não há em mim espaço para comprar a idéia desse loteamento celestial, meu contra-senso não se permite a esse bom senso.
Uma vez que cabe a mim redigir minha própria carta de alforria, que compete a mim redigir meu destino, declaro para o devidos fins ( e meios) que encontro em mim um senhor de seu domínio, certo que quem demanda pastor são os animais de rebanho e que me alegro com meu presente sem perdão e sem culpa. Por amor à vida de uma forma inefável e de uma forma plena, não mais pelo medo de morrer, mas pelo fato de a Vida ser tudo que se pode ter e a única que se pode e se permite amar.
Ps – Reverberações de “Ecce Homo”.
Ps 2- Sem afirmar nenhuma certeza, estar certo é pretensão de quem tem fé.
[i] Nietzsche, o Belchior germânico.