sexta-feira, 23 de abril de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Da minha espécie em extinção...

“A insônia é um sonho que não acaba”?


     A insônia é um dispositivo criado pela escrita para vir ao mundo? A insônia é a cara metade da solidão? Os quartos escuros estão cheios de quais vazios? Das alcovas dos que escrevem, das cabeças cheias e corações vazios de outrora, haveria, à revelia, alguma epifania nisso?
     Drogas para dormir, drogas para ficar acordado, drogas para ficar legal, drogas para parar de tomar drogas, a solução para as drogas da vida cabe em um comprimido? (A alegria e os sorrisos podem ser comprimidos?) A vida em um apartamento, o medo protegido por grades, as pequenas pessoas e suas grandes cidades com idéias de concreto e afetos virtuais, e de mais quantas formas o medo se vale e se passa por violência, egoísmo e fantasia?
     Quanto vale a vida, abortada ou sintetizada, emulada? Esse “The Sims” que jogamos off line, onde estão as vozes acapella orgânicas cultivadas no deserto (e/ou em alto mar) longe dos “fast foods” e “fast fucks”, da vida sintetizada pelos MAC Donald’s e pelos MACintosh?
     Ah, minha espécie em extinção... à minha espécie em extinção,  que(m) resta de nós mesmos? Um chamado, uma chamada telefônica, um grito de socorro, um sinal de fumaça, um sms, um MSN, um código Morse, um pombo correio, um telefonema, um telegrama, um email, uma carta, uma mensagem numa garrafa ao mar, um olhar, um som, um sim, uma entrelinha...




domingo, 18 de abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010






"...Certos dias têm cara de vida inteira
Não sei se é do vinho ou da vida
quando fico assim
Outra madrugada perdida
procurando você
procurando por mim..."

Dado Villa-Lobos






  Sem hesitar, ele é o pior guitarrista que eu conheço. Eu sempre senti vergonha por ele tocando guitarra, até que um dia ele resolveu cantar e a vergonha virou um eufemismo. No entanto, o conheci de uma das bandas mais marcantes em muitas das minhas trajetórias(das musicais às existenciais). Ainda bem que ele insistiu em tirar as idéias da gaveta e publicá-las. Ainda bem que ele fez do receio poesia¹. Ainda bem que ele tocava coisas simples e mal estruturadas, um rascunho do que poderia vir a ser uma música mesmo. (inerente da escola punk).Se ele tinha coragem de tocar como tocava/toca e se dizer guitarrista, eu poderia ter coragem para também tocar guitarra. (Eu insisto em cada erro e ainda me passo por inteligente). A entrelinha aqui, desse rascunho(escrito no blog e não no word), é que a insônia cansa, esperar o sono cansa, sonhar só acordado cansa e a madrugada em claro é um cansaço que se reflete por todo o dia. Queria eu mais sono e menos idéias, segundo Simpson, H., a felicidade é inversamente proporcional ao montante qualitativo e quantitativo de idéias de um indivíduo. Concordo, não ouso dizer não, se fosse mulher seria como "daquelas  mulheres (do Chico) que só dizem sim", e hoje nem é o dia de dizer não. Lembro da célebre história de que o Dado entrou na banda( e na história) e nunca havia tocado guitarra. O Renato dizia: "Faz o barulhinho que tá bom..."( Quase uma teoria: "O cara errado na hora certa"). Dessas histórias de outrora, espanta e encanta ver que do guitarrista medíocre musicalmente não me recordo nenhum solo ou acorde ou timbre ou algo "guitarrístico", só algumas palavras, que ele por despretensão ou "por amor às causas perdidas"² escreveu isso  e ousou dividir comigo e com o mundo; e isso ecoa como um delay infinito³ nos meus ouvidos...



























1- No sentido grego, de poiesis.

2- Dom Quixote de la Engenharia Hawaiiana.

3- A melhor maneira que eu encontrei de parar esse efeito de guitarra é desligando o amplificador da tomada.





quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dos erros e quase acertos...





     Ainda que em exercício de indiferença ao alheio, incomodava-me algumas organizações de mundo ao meu redor. Não que agora eu tivesse a posse da verdade ou tivesse rasgado minhas leituras de outrora e agora me tornasse senhor e definidor do bem e do mal. Incomodava-me algumas inversões, se “por amor às causas perdidas[1]”, cederia uma licença poética, mas no entanto, era apenas “peixe fora d´água, borboletas no aquário”.[2]
     O desdém alheio por aquilo que aos meus olhos parecia perfeito não era de agora e já não me era problema. Mas tarde da noite, antes do sono, quando ainda é cedo para sonhar, algumas imagens e sons me saltavam as idéias (na ausência de carneirinhos e cercas). Indagava-me sobre as construções embasadas em conjunturas e não em estruturas. O cara errado no lugar certo e na hora certa; o silêncio fazendo se passar como a palavra certa; a voz do povo e o equívoco divino; e a história acontecendo “com ou sem você[3]”.
     As melhores cartas na mão do pior jogador, um expediente válido para o equilíbrio do universo? Ainda que a derrota seja inevitável, ainda me é possível escolher não jogar. Como na infância ao se jogar vídeo-game e diante do intransponível desafio: “-Quem foge vive para lutar de novo”. A idéia do “All that you can’t leave behind[4]” mesmo, de que só é meu aquilo que eu posso abdicar.(Já falei disso outrora por aqui.) E a solidão das pessoas é minha, o medo do escuro, as dúvidas e a inconstância de quem muda de idéia como quem muda de cor. Do meu monocromatismo só me é possível ir de um extremo ao outro, há tempos perdi o meio termo das coisas, o meio do caminho que tinha uma pedra, o meio que justifica o fim. Não sei escrever “Talvez”, ainda que durma abraçado de conchinha com a dúvida, apenas conheço o não e o sim, a verdade ou o silêncio(fiz um curso à distância há três primaveras para desaprender a mentir), a folha em branco ou a poesia da alma (a vida é escrita em definitivo e eu gosto é do rascunho e das coisas rabiscadas), na ausência da outra metade, só me resta ser por inteiro.[5]
     As tradições que eu inventei para traduzir a minha busca incessante pelo novo. Talvez isso explique o adjetivo inconstante em mim: o desejo pelo novo talvez demande desequilíbrio para viabilizar a concepção de um reequilíbrio. A tradição, numa atitude antropofágica, implodindo-se hoje para construir novos horizontes amanhã.
     Como imprimir acertos em um cotidiano usurpado pelos erros de um passado que não me foi possível viver? Sobrevida outrora, das cinzas e escombros se faz algo novo. Por se dar um novo sentido à matéria das coisas, pela mudança ocorrida no observador e não no objeto. A grande revolução do mundo e da humanidade acontecida no lado esquerdo do peito, em um coração que aprendeu a pulsar e (de)bater(-se) sozinho e em silêncio...









[1] Engenharia hawaiiana, Dom Quixote...
[2]  Engenharia hawaiiana, ... de la Mancha.
[3] Você também, aquela música que fala tudo sobre a “paixões cruéis desenfreadas”.
[4] Você também, o disco de 2000 que fala sobre perdas e finitudes.
[5] Algumas notas ficam nos parênteses e nas entrelinhas.







domingo, 11 de abril de 2010

Do Selo comentarista excelente...





Eu nunca fui muito afeito com os nomes de batismo...









“Muito prazer meu nome é otário
vindo de outros tempos, mas sempre no horário
peixe fora d’água
borboletas no aquário...”


Tudo bem, todo mundo já sabe que eu perdoei minha mãe por isso. Acho que ela acreditou  naquela história do “Meu filho vai ter nome de santo...”, só não ouviu a parte do “...quero o mais bonito...”Quando vi o selo “Comentarista excelente”, sem saber que eu era isso para alguém, estranhei o nome e achei que caberia um adjetivo outro que poderia vir a ser mais conveniente. No entanto, os sentidos é que me apetecem, não a grafia em si,(mas a filologia é quase uma poesia!) e o selo veio de alguém com quem eu concordo muito, alguém que escreve de uma forma que me deixa sem muitos adjetivos, mas com muitos afetos. Minha primeira amiga oriunda da virtualidade da “blogosfera”, meio que deliberadamente, optamos por nos conhecer assim, uma vez que poderíamos nos conhecer “...de outros carnavais, com outras fantasias...”... (vou ser breve, “Quem sabe um dia eu escrevo uma canção  pra você?”)

Aí eu ganhei e não sabia direito o que era e o que fazer. (Na verdade, nunca soube isso sobre quase tudo.) Mas eu percebi que tinha uma missão e lembrei de um dos meus grandes Mestres (intelectual, espiritual, musical, filosófico, educacional) que dizia citando uma tal de Clarice: “A vida é uma missão secreta”. Ele fez de sua dissertação de mestrado um poesia e da tese de doutorado elevou isso ao quadrado e para defendê-la, fez um show, algo representativo de sua passagem pelo mundo. De fato, merece um respeito maior e uma admiração imensurável, pois ele fez dentro da academia o que muitos só conseguem fora, ele fez valer a linguagem poética na seara da linguagem acadêmica. Acho que só tenho um fragmento a dividir com vocês aqui.  Olhem na plataforrma Lattes, biblioteca da UFC, olhem o livro dele, aqui é só um fragmento:


Depois, veio alguém que eu cito sempre ao falar do homem “Macho alpha”(poder aquisitivo da classe dominante, físico da classe operária e a capacidade intelectual para discutir a relação entre os dois primeiros). Brilhante! Todos riem quando eu a cito! Acho que por acaso e curiosidade, eu cliquei e cheguei lá e me rende(u) boas leituras e bons diálogos. Acho que “comentarista excelente” deve ser alguém que nos dá diálogos excelentes. Não sei ao certo, mas ela me faz sentir uma saudade positiva da academia, e é explícito que eu não guardo muitos afetos das idéias da Universidade. (Até quem me apetece não sabe disso). Enfim, hoje é domingo e eu não vou divagar muito(se não perco o Faustão, Gugu, João Inácio Jr.. Mentira estou assistindo literalmente a “Filmes de guerra, canções de amor”)


Por último e não menos importante, o meu vizinho. (Precisamos no mínimo três pontos para um plano, acho que por isso temos que escolher três pessoas para o selo.) Aqui do lado, ele percebe as levezas e sutilezas no caminho, que às vezes, eu só vejo a vontade de voltar pra casa. Por isso ele é o cronista e eu o chato. Acho que ele vai ser aquele cara milionário(quando tiver um milhão de amigos e receber 1 real de cada um), transborda carisma até quando escreve e os adjetivos que ele carrega precisam ser lidos por você e não descritos por mim.



Ps – Há três meninas, “três Marias” que me aparecem por aqui e que já me renderam sorrisos sinceros, ainda estou brincando de conhecer...
Eu só podia citar três pessoas, mas tenho um sério problemas com figuras de autoridade... Se bem que no “post scriptum” há uma brecha:


Ps2- Ela chegou ontem, depois exponho nossos filhos...





quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enquanto ela não vem...







Enquanto ela não vem
qualquer história
é a história certa
para o livro dos erros

As noites são em claro
os dias fora do páreo
Todo acaso é um sinal,
frases sem ponto final
muitas falas, nenhum diálogo

Falta muito para a poesia
de minha vida(parte dois?)
virar a prosa de meus dias(?)

Enquanto ela não vem
esses versos são sem rima
não são nem versos brancos
São páginas em branco
de uma vida,
meia vida(?)à procura da outra metade(?)
Parte dois ou partido em dois?

A solidão das pessoas
as paixões sem par
o medo de ser sozinho
versus o medo de amar


São divagações
que por enquanto(ela não vem)
sou de vagas ações
sou de ruídos em uma guitarra
(Pra que tantos pedais se eu não sei onde pisar?)
sou notas soltas ao piano
voz sem melodia
pontas soltas ou nó(s) cego(s)
ao acaso
à toa
à deriva
ao léu
à espera
Enquanto ela não vem...









domingo, 4 de abril de 2010









Ainda tinha na prateleira
um pouco da falta que ela me faz
Sobrara quase nada
e nada importava
nessas horas, os dias comportam a eternidade
as inversões de caminho
que eu poderia ter feito
ainda me tra(i)riam
ao mesmo lugar
com outras dúvidas
mas sem as mesmas respostas









quinta-feira, 1 de abril de 2010










Ah, se as mentiras em que acredito fossem verdade...















quarta-feira, 31 de março de 2010

Das indagações sobre do que era o blog...




Indagado sobre do que era o blog “Vida Parte Dois”, parei-me na resposta e automaticamente soltei;”-É sobre prosa e poesia.” Ainda tentei consertar falando que tratava da escrita, meta-escrita, usando a escrita para falar da escrita... Antes mesmo de terminar sabia que havia perdido um leitor.
Segundos depois comecei a pensar que “Vida” era também uma unidade de tempo e que algumas coisas eram contadas não em segundos, dias, décadas, mas sim em vidas. Quantas vidas passaram até essa idéia do texto?
Minutos depois fui tomado pela idéia de que “Vida Parte Dois” era meio que um “Dark side of the moon”, no sentido de ter como temática as angústias humanas. À minha forma, ao meu ver, à minha maneira, dentro dos limites de um lápis e uma folha em branco, pois, tenho plena ciência de que “Vida Parte Dois” está algumas vidas aquém do “Dark side of the moon”. (E agora vida já virou unidade espaço-tempo.)
Horas depois me veio a idéia de que havia o intuito de fazer resignificações, expandir campos semânticos, como se fossem neologismos de sentido. Como se isso por si só já valesse toda e qualquer labuta. Como se o sentido fosse não ter sentido, a fim de que assim, este pudesse ser criado.
Dias passaram por mim e me deparo sem resposta ainda. Poderia me valer de que a escrita não demanda nenhuma demanda. (Por um instante pensei que as crônicas de Jornal tinham como função social forrar gaiolas.)No entanto, não ter demandas, não ter a quem responder, caminhar rumo ao nada para satisfazer o desejo de caminhar, sem dúvidas com o futuro ou dívidas com o passado; isso tudo cabe no campo semântico de liberdade. A minha escrita é um exercício de liberdade. É a epifania de meu dia, é a melodia em meu canto, as cores da paleta de minha vida. Tenho aqui mais que respostas, eu tenho interrogações e reticências( e um monte de parênteses). Eu tenho a chave das portas, não da percepção, mas dos sentidos( e do sentir), reinventados, reciclados, renovados, revelados. Eu tenho  prosa para falar da poesia de escrever. Não é quase nada, só um caderno aberto de uma vida que se diz um livro aberto, mesmo que aos olhos alheios não se veja assim. São os meus personagens em histórias alheias, em uma escrita minha. A fantasia começa quando se coloca qualquer coisa em um papel, é tirar do concreto da memória e das idéias e colocar no abstrato da escrita...






domingo, 28 de março de 2010

Das memórias (ou “desmemórias”)...

       Abdicar de um sonho é mais difícil que tentar concretizá-lo. Abdicar é perder enquanto quem tenta efetivá-lo encontra a possibilidade de não ganhar. Caminhar sem aquilo que nunca tivemos é mais fácil que continuar deixando para trás o que nos pertenceu. Eu nunca tive asas (mesmo que outrora tivesse aprendido a voar) o quão maravilhoso seria minha locomoção viabilizada por asas. No entanto, não ter mais uma das pernas castraria a dinâmica de meus movimentos. Perder é uma dor maior do que não ganhar. Deixar para trás é bem mais fácil que seguir em frente. Esquecer é uma tarefa árdua, um exercício constante para não lembrar. É mais fácil contornar os problemas de se ter uma fraca memória que os ônus de se ter uma boa memória. Para aquela, notas e anotações podem dar cabo às intempéries, enquanto para esta há apenas o fardo e o pesar como quem anda mancando por ter uma ferida aberta. Cada passo é um movimento contrário à tentativa de esquecer. Deixar à cargo do tempo é como delegar ao acaso a responsabilidade pela vitória. Boa memória não é atributo, é castigo. É um doença auto-imune insistindo em sempre cutucar feridas. Nesse contexto, o vazio se apresenta como um horizonte com mais cores em um mundo em que ter boa memória implica em daltonismo.

sexta-feira, 26 de março de 2010





Cabeça aberta

pés descalços

coração na mão



 



O primeiro passo

a última dose

a cabeça cheia e

(a página em branco)

e o coração vazio



 

No lugar certo,

na hora certa,

já não é mais a pessoa errada

uma palavra para quebrar o silêncio

e o destino já não pertence

ao acaso



 



Alheio à terceira do plural

Perdido ou um Achado?

Ser mais do que já fui e menos do que serei

Ser é uma palavra muito forte para

estátuas de ar

Estar ou não estar, eis (minh)a questão

a dúvida é um monolito para o movimento

e saber que não quero estar aqui

me abre as portas para qualquer lugar

 
 
 
 
 







domingo, 21 de março de 2010

Da indiferença II




Não tem o que dizer
e insiste em não ouvir
o que haveria a falar
Só o silêncio importa
Qualquer palavra é um atentado
à solidão do silêncio
A escrita deve ficar
em silêncio, em gavetas,
escondidas em velhos cadernos
A história já nasceu póstuma
Deixemos que os necrófilos a registrem
enquanto nós a escrevemos



Há um segredo a ser silenciado
contá-lo é assassiná-lo
Deixe que morra a curiosidade
e floresça a indiferença
do lado esquerdo de cada peito
escondido no canto escuro de cada quarto





quarta-feira, 17 de março de 2010

Da indiferença I







Desinteresse pelo alheio,
auto-misantropia
A construção do próprio entorno
ou as idas sem retorno
em caminhos sem volta



Pausa para um café
ou uma bala que não me toma tempo
Sem segredos
ou mentiras
Eu apenas não quero saber
Sem respostas,
da curiosidade não entendo
Barba por fazer,
blusa desbotada,
calça rasgada, tênis velho
Eu não mendigo a aprovação de outrem



Ah,há em mim um espelho
apenas a devolver o que lhe é dado
Não esconder nada,
mas a cultivar o silêncio




Alheio ao desinteresse do outro
indiferença é um exercício de “desimportância”
e desapego
Bobagem, besteira, nada não,
deixa pra lá,chato, sem graça, entendiante,
 insignificante e ignorado
A escrita do não em meu cotidiano
É só um jogo de palavras
o sentido é (vi)ver o mundo buscando um sentido
é fim de jogo, fim da linha, fim de papo






sábado, 13 de março de 2010

Do verbo gostar...






Gosto de uma forma ímpar
do cheiro de chuva
Meus olhos brincam
acompanhando os pingos dӇgua
Descanso do mundo
e lavo um pouco das minhas dores
com a chuva em minhas mágoas



 O gosto do pôr do Sol
e  da cor mais linda que não sei o nome
não sei descrever,
mas sei onde encontrá-la todos os dias
Degusto um sabor de baunilha do céu
no fim da tarde
o sol se põe e me impõe
a presença de lentes e luzes
(eu escuto melhor de óculos)
E no silêncio inerente à noite
eu (me) encontro (em) minhas idéias
A noite é o vazio do dia
e isso demanda muitas coisas para preenchê-la
sons, sonos,sonhos, idéias, ideais, leituras e escritas
A noite foi a melhor invenção(inversão) do dia





domingo, 7 de março de 2010




Alguma coisa mudaria...
(-Doce ilusão.)
ao procurar sem encontrar
sem saber o que se quer achar
ou por que se quer achar
Partir rumo ao nada
para construir o caminho
na caminhada
ou rastejar a vida toda
para ser borboleta por 24 horas
ou Cinderela até a meia-noite
Coisa alguma mudaria...
(-Desilusão.)





domingo, 28 de fevereiro de 2010

Da genialidade das coisas simples

     A grande resposta, a grande descoberta, a grande idéia, o grande plano... Estaria mesmo lá fora o que podemos encontar aqui? Preciso mesmo importar o alheio para contemplar o que me falta? Estão em mim as perguntas (e essas me valem mais que as respostas) e não lá fora, onde equivocadamente procuro.


     Cresci rindo da lógica silvícola ao trocarem tesouros por espelhos. No entanto, diante da imagem de minha incessante barba por fazer, no espelho do banheiro, ao ver um rosto que aprendi a chamar de meu, tive a epifania que os índios(os quais eu julgava tolos) tiveram há cinco séculos. Um espelho nos dá o maior tesouro do mundo: nós mesmos! A imagem refletida em um instante de auto-conhecimento em que os olhos só alcançam aquilo que somos.

     Eu por meus olhos. A obra de arte que nenhum pintor será capaz de conceber. Apenas meus olhos e os meus três graus de hipermetropia e astigmatismo podem me conceder. Algum reconhecimento nisso? Algum mérito em ver que sou eu mesmo?

     Da barba que não desiste de crescer ao cabelo que insiste em cair, eu vejo mais que a embalagem e até pergunto por que não me destaco na prateleira. Talvez por ser preciso que as pessoas me leiam amiúde, nas entrelinhas miúdas do meu rótulo deve ter minha composição e algumas instruções como manter longe de crianças e animais. No entanto, a lógica ainda favorece as embalagens maiores e mais chamativas(eu pensei apelativas?): “-Ah, vou pegar aquele maior com o frasco amarelo, que depois de usar eu posso aproveitar a embalagem que é tão bonitinha!” E eu lá na prateleira sem grana para um “merchandising” no horário nobre do dia de quem eu quero que queira o meu querer.  

     Nesse ponto, o índio é genial. (Além de andar nu, claro.)  Com um espelho ele ganha a possibilidade de desfrutar da companhia dele mesmo. O alheio lhe é indiferente. Ele tem diante de si um infinito de possibilidades a serem consideradas antes mesmo de ser preciso olhar para o lado. Os portugueses descobrindo um novo continente e o índio descobrindo um novo mundo.  Queria não ser “civilizado” e ter da mesma burrice indígena; aproveitar a companhia de alguém que (me) escreve todos os dias, faz piadas sobre tudo (mesmo que eu seja a única pessoa a rir) tudo“Tem computador e rede, rede para dois, gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão...”[1] e encontra sempre uma forma plural de dar espaço às criatividades e de expressar mais do que qualquer segredo guardaria. Mas não, insisto em ficar procurando minha imagem no espelho alheio...



(...)



[1]  “Gerânio”, Marisa Monte.












segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A solidão é um bem a ser cultivado...

     Da arte de estar sozinho, aprendo eu , comigo, no universo entre uma palavra minha e a escuta em silêncio de um alheio que sou eu de uma perspectiva diferente. Cultura de solidão, raízes no ar, sementes em mim, flores sem espinhos e caminhos sem fim. A eternidade se esconde na solidão das pequenas coisas.
     Os tons que se harmonizam no silêncio, as cores que concordam no escuro, as idéias que se encontram na solidão. É mais que espaço, é expansão. Liberdade escrita como verbo que conjuga a vida à luz da regência de um estado de plenitude. O encontro consigo mesmo como o encontro com a cara metade.   
     Os grandes livros, as grandes sinfonias... A imortalidade reside a duas quadras da solidão. A chave para dividir-se com o mundo está em concentrar-se em si mesmo. Não se trata de egoísmo ou misantropia, mas quem sabe, um altruísmo extremo ao construir nos espaços da solidão aquilo que pode dar sentido aos adjetivos belo ou genial. A escrita é artesanal. Não conheço arrendamento de palavras, conheço plágio e citação. É preciso reconhecer o monólito em uma idéia, sentimento, experiência e saber esculpir as palavras que ganharam um novo sentido à cada novo leitor. Leitura se faz sozinho, televisão se assiste em grupo. Solidão é vida, criação. A dúvida surge em silêncio, as respostas se ouvem em coros.
     O tempo que se passa sozinho é aprendizado, é como ter a possibilidade de se colocar a existência diante de um espelho. Não que a companhia das multidões e um milhão de amigos(para cada um me dar um real) seja uma coisa ruim. O fato é que família, amigos e amores ajudam na “caminhada da vida”. No entanto, a solidão é asas para uma vida livre. Dívidas só com a superação de si e dúvidas que não demandam respostas por imperativos alheios. É centrar-se e ter novas diretrizes para um horizonte construído à cada novo sonho. Solidão comporta todo o entendimento. É preciso estar em paz consigo mesmo para ousar um acordo com o mundo. Paz no sentido de harmonia, porque a guerra é ímpeto de movimento e este abre portas para a superação de paradigmas e portanto, crescimento.








quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sobre a(s) “desimportância(s)”...













    Por considerar grande parte das coisas desimportantes, aprendi a descobrir o que realmente poderia agregar alguma importância. Aquilo que não precisava ser definido como importante para ser importante. Não era a coisa em si, mas a forma como ela me chegava. Nunca me disseram que uma folha em branco e um lápis eram especiais. No entanto, um PC já nascia com a promessa de mudar sua vida. Nenhum saudosismo às falecidas “Olivetti”, mas a escrita artesanal por si só se faz importante.
         
         Dizer não para a terceira pessoa do plural é um exercício diário. Eu quero as minhas escolhas ratificadas e retificadas por mim. A indiferença pela dor alheia, nesse ensejo, poderia ser mútua. Ser menos humano é um benefício para o progresso da humanidade. Definhar é ceder espaço ao alheio mais forte  e não usurpar o espaço de outrem conquistado pela força. O peso dos fracos não deveria cair como um pesar para os fortes. Fazer da necessidade um mote para a criação, da fraqueza força, como aqueles que fizeram da solidão música, que da folha em silêncio criaram poesia, que diante do medo escreveram a coragem, que diante da ausência inventaram a saudade... 














segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010









A existência é, por essência, miserável...











segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Alheio




À saudade que
me traz você
em meus sonhos
que faz da falta
de você em mim
um conto
ou uma versão
do poema
da paixão de ontem
vivida hoje em mim
(enquanto fecho os olhos)




terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rebordosa (ou o poeta do silêncio)





O poeta do silêncio
ele me pertence
ou é posse minha?
Quando se confunde
o lado de dentro
com o de fora
com as portas abertas
janelas fechadas importam?

O não faz mais sentido
para quem sempre ouviu o sim
Fome não é ausência
por aqui,
é ímpeto de movimento
é um passo à frente
para deixar o futuro para trás

Às vezes, até me vem
achar que o saudável
é ter saudade
que o saudável
como uma rebordosa positiva
como um efeito colateral do que foi bom
sem mesmo fazer bem ou mal
apenas por ter um ponto final
e fica a saudade alentando a esperança
por uma reticências

Se me pudesse reescrever
cobriria à caneta esses rascunhos de lápis
Nem mesmo pintaria mais flores
(para não ter mais espinhos)
ou desenharia mais sorrisos
(para não ter que esconder tantas lágrimas)





domingo, 24 de janeiro de 2010






Até que a última canção seja cantada
Até que a última poesia seja escrita
Até que a última mulher seja amada


à sombra do passado incompleto
até se perceber no despropósito
como o grande propósito
A despretensão em achar que o destino
caberia alguma culpa
pelo fracasso
ou pelos acertos do acaso






quarta-feira, 20 de janeiro de 2010








"O perdão advém da impossibilidade de vingança."











domingo, 17 de janeiro de 2010




Mentir é narrar a história da maneira que nos convém. É usar eufemismos ao relatar os erros, metonímias para que as ações feitas na hora certa pelas pessoas erradas possam servir de indulto. Mentir é hiperbolizar os acertos e usar metáforas quando se precisa de calma e há demanda de se explicar. Mentir é ter na retórica e eloqüência a chance de se ter razão mesmo quando equivocado. A mentira é a imagem percebida (pela lente débil dos sentidos) do objeto verdade. A mentira é a diplomacia para o narcisismo das idiossincrasias. A mentira é a condição da existência da verdade, é a humanização da relação de mutualismo entre o homem e seus pares. A mentira é o sorriso que impede o conflito, é a confissão que absolve o culpado e delega a pena a um terceiro alheio e anônimo. Mentira são as entrelinhas dos versos, os hiatos entre as palavras, os parênteses, as lacunas, os desdobramentos, reticências e as aspas. A mentira é o “felizes para sempre” depois do fim da história. Mentira é a catacrese de nossos dias. Mentira é o amor secreto traduzido em três palavras.









quinta-feira, 14 de janeiro de 2010










Esperança é o primeiro passo para a frustração.













domingo, 10 de janeiro de 2010





Exercício de desapego e desinteresse
a mesma fuga
em um movimento contrário
O esforço para lembrar
é o mesmo para esquecer



Tirar a cartola do coelho
caminhar sob as águas
plantar um livro
escrever um filho
ter um árvore



Tecer as histórias
contar os afetos
em parágrafos ou versos
em paráfrases ou neologismos
O mesmo dito de várias formas
o mesmo beijo em várias bocas
o mesmo vazio em vários corações



sábado, 2 de janeiro de 2010








Ano novo de novo,de novo...