domingo, 11 de abril de 2010

Do Selo comentarista excelente...





Eu nunca fui muito afeito com os nomes de batismo...









“Muito prazer meu nome é otário
vindo de outros tempos, mas sempre no horário
peixe fora d’água
borboletas no aquário...”


Tudo bem, todo mundo já sabe que eu perdoei minha mãe por isso. Acho que ela acreditou  naquela história do “Meu filho vai ter nome de santo...”, só não ouviu a parte do “...quero o mais bonito...”Quando vi o selo “Comentarista excelente”, sem saber que eu era isso para alguém, estranhei o nome e achei que caberia um adjetivo outro que poderia vir a ser mais conveniente. No entanto, os sentidos é que me apetecem, não a grafia em si,(mas a filologia é quase uma poesia!) e o selo veio de alguém com quem eu concordo muito, alguém que escreve de uma forma que me deixa sem muitos adjetivos, mas com muitos afetos. Minha primeira amiga oriunda da virtualidade da “blogosfera”, meio que deliberadamente, optamos por nos conhecer assim, uma vez que poderíamos nos conhecer “...de outros carnavais, com outras fantasias...”... (vou ser breve, “Quem sabe um dia eu escrevo uma canção  pra você?”)

Aí eu ganhei e não sabia direito o que era e o que fazer. (Na verdade, nunca soube isso sobre quase tudo.) Mas eu percebi que tinha uma missão e lembrei de um dos meus grandes Mestres (intelectual, espiritual, musical, filosófico, educacional) que dizia citando uma tal de Clarice: “A vida é uma missão secreta”. Ele fez de sua dissertação de mestrado um poesia e da tese de doutorado elevou isso ao quadrado e para defendê-la, fez um show, algo representativo de sua passagem pelo mundo. De fato, merece um respeito maior e uma admiração imensurável, pois ele fez dentro da academia o que muitos só conseguem fora, ele fez valer a linguagem poética na seara da linguagem acadêmica. Acho que só tenho um fragmento a dividir com vocês aqui.  Olhem na plataforrma Lattes, biblioteca da UFC, olhem o livro dele, aqui é só um fragmento:


Depois, veio alguém que eu cito sempre ao falar do homem “Macho alpha”(poder aquisitivo da classe dominante, físico da classe operária e a capacidade intelectual para discutir a relação entre os dois primeiros). Brilhante! Todos riem quando eu a cito! Acho que por acaso e curiosidade, eu cliquei e cheguei lá e me rende(u) boas leituras e bons diálogos. Acho que “comentarista excelente” deve ser alguém que nos dá diálogos excelentes. Não sei ao certo, mas ela me faz sentir uma saudade positiva da academia, e é explícito que eu não guardo muitos afetos das idéias da Universidade. (Até quem me apetece não sabe disso). Enfim, hoje é domingo e eu não vou divagar muito(se não perco o Faustão, Gugu, João Inácio Jr.. Mentira estou assistindo literalmente a “Filmes de guerra, canções de amor”)


Por último e não menos importante, o meu vizinho. (Precisamos no mínimo três pontos para um plano, acho que por isso temos que escolher três pessoas para o selo.) Aqui do lado, ele percebe as levezas e sutilezas no caminho, que às vezes, eu só vejo a vontade de voltar pra casa. Por isso ele é o cronista e eu o chato. Acho que ele vai ser aquele cara milionário(quando tiver um milhão de amigos e receber 1 real de cada um), transborda carisma até quando escreve e os adjetivos que ele carrega precisam ser lidos por você e não descritos por mim.



Ps – Há três meninas, “três Marias” que me aparecem por aqui e que já me renderam sorrisos sinceros, ainda estou brincando de conhecer...
Eu só podia citar três pessoas, mas tenho um sério problemas com figuras de autoridade... Se bem que no “post scriptum” há uma brecha:


Ps2- Ela chegou ontem, depois exponho nossos filhos...





quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enquanto ela não vem...







Enquanto ela não vem
qualquer história
é a história certa
para o livro dos erros

As noites são em claro
os dias fora do páreo
Todo acaso é um sinal,
frases sem ponto final
muitas falas, nenhum diálogo

Falta muito para a poesia
de minha vida(parte dois?)
virar a prosa de meus dias(?)

Enquanto ela não vem
esses versos são sem rima
não são nem versos brancos
São páginas em branco
de uma vida,
meia vida(?)à procura da outra metade(?)
Parte dois ou partido em dois?

A solidão das pessoas
as paixões sem par
o medo de ser sozinho
versus o medo de amar


São divagações
que por enquanto(ela não vem)
sou de vagas ações
sou de ruídos em uma guitarra
(Pra que tantos pedais se eu não sei onde pisar?)
sou notas soltas ao piano
voz sem melodia
pontas soltas ou nó(s) cego(s)
ao acaso
à toa
à deriva
ao léu
à espera
Enquanto ela não vem...









domingo, 4 de abril de 2010









Ainda tinha na prateleira
um pouco da falta que ela me faz
Sobrara quase nada
e nada importava
nessas horas, os dias comportam a eternidade
as inversões de caminho
que eu poderia ter feito
ainda me tra(i)riam
ao mesmo lugar
com outras dúvidas
mas sem as mesmas respostas









quinta-feira, 1 de abril de 2010










Ah, se as mentiras em que acredito fossem verdade...















quarta-feira, 31 de março de 2010

Das indagações sobre do que era o blog...




Indagado sobre do que era o blog “Vida Parte Dois”, parei-me na resposta e automaticamente soltei;”-É sobre prosa e poesia.” Ainda tentei consertar falando que tratava da escrita, meta-escrita, usando a escrita para falar da escrita... Antes mesmo de terminar sabia que havia perdido um leitor.
Segundos depois comecei a pensar que “Vida” era também uma unidade de tempo e que algumas coisas eram contadas não em segundos, dias, décadas, mas sim em vidas. Quantas vidas passaram até essa idéia do texto?
Minutos depois fui tomado pela idéia de que “Vida Parte Dois” era meio que um “Dark side of the moon”, no sentido de ter como temática as angústias humanas. À minha forma, ao meu ver, à minha maneira, dentro dos limites de um lápis e uma folha em branco, pois, tenho plena ciência de que “Vida Parte Dois” está algumas vidas aquém do “Dark side of the moon”. (E agora vida já virou unidade espaço-tempo.)
Horas depois me veio a idéia de que havia o intuito de fazer resignificações, expandir campos semânticos, como se fossem neologismos de sentido. Como se isso por si só já valesse toda e qualquer labuta. Como se o sentido fosse não ter sentido, a fim de que assim, este pudesse ser criado.
Dias passaram por mim e me deparo sem resposta ainda. Poderia me valer de que a escrita não demanda nenhuma demanda. (Por um instante pensei que as crônicas de Jornal tinham como função social forrar gaiolas.)No entanto, não ter demandas, não ter a quem responder, caminhar rumo ao nada para satisfazer o desejo de caminhar, sem dúvidas com o futuro ou dívidas com o passado; isso tudo cabe no campo semântico de liberdade. A minha escrita é um exercício de liberdade. É a epifania de meu dia, é a melodia em meu canto, as cores da paleta de minha vida. Tenho aqui mais que respostas, eu tenho interrogações e reticências( e um monte de parênteses). Eu tenho a chave das portas, não da percepção, mas dos sentidos( e do sentir), reinventados, reciclados, renovados, revelados. Eu tenho  prosa para falar da poesia de escrever. Não é quase nada, só um caderno aberto de uma vida que se diz um livro aberto, mesmo que aos olhos alheios não se veja assim. São os meus personagens em histórias alheias, em uma escrita minha. A fantasia começa quando se coloca qualquer coisa em um papel, é tirar do concreto da memória e das idéias e colocar no abstrato da escrita...






domingo, 28 de março de 2010

Das memórias (ou “desmemórias”)...

       Abdicar de um sonho é mais difícil que tentar concretizá-lo. Abdicar é perder enquanto quem tenta efetivá-lo encontra a possibilidade de não ganhar. Caminhar sem aquilo que nunca tivemos é mais fácil que continuar deixando para trás o que nos pertenceu. Eu nunca tive asas (mesmo que outrora tivesse aprendido a voar) o quão maravilhoso seria minha locomoção viabilizada por asas. No entanto, não ter mais uma das pernas castraria a dinâmica de meus movimentos. Perder é uma dor maior do que não ganhar. Deixar para trás é bem mais fácil que seguir em frente. Esquecer é uma tarefa árdua, um exercício constante para não lembrar. É mais fácil contornar os problemas de se ter uma fraca memória que os ônus de se ter uma boa memória. Para aquela, notas e anotações podem dar cabo às intempéries, enquanto para esta há apenas o fardo e o pesar como quem anda mancando por ter uma ferida aberta. Cada passo é um movimento contrário à tentativa de esquecer. Deixar à cargo do tempo é como delegar ao acaso a responsabilidade pela vitória. Boa memória não é atributo, é castigo. É um doença auto-imune insistindo em sempre cutucar feridas. Nesse contexto, o vazio se apresenta como um horizonte com mais cores em um mundo em que ter boa memória implica em daltonismo.

sexta-feira, 26 de março de 2010





Cabeça aberta

pés descalços

coração na mão



 



O primeiro passo

a última dose

a cabeça cheia e

(a página em branco)

e o coração vazio



 

No lugar certo,

na hora certa,

já não é mais a pessoa errada

uma palavra para quebrar o silêncio

e o destino já não pertence

ao acaso



 



Alheio à terceira do plural

Perdido ou um Achado?

Ser mais do que já fui e menos do que serei

Ser é uma palavra muito forte para

estátuas de ar

Estar ou não estar, eis (minh)a questão

a dúvida é um monolito para o movimento

e saber que não quero estar aqui

me abre as portas para qualquer lugar

 
 
 
 
 







domingo, 21 de março de 2010

Da indiferença II




Não tem o que dizer
e insiste em não ouvir
o que haveria a falar
Só o silêncio importa
Qualquer palavra é um atentado
à solidão do silêncio
A escrita deve ficar
em silêncio, em gavetas,
escondidas em velhos cadernos
A história já nasceu póstuma
Deixemos que os necrófilos a registrem
enquanto nós a escrevemos



Há um segredo a ser silenciado
contá-lo é assassiná-lo
Deixe que morra a curiosidade
e floresça a indiferença
do lado esquerdo de cada peito
escondido no canto escuro de cada quarto





quarta-feira, 17 de março de 2010

Da indiferença I







Desinteresse pelo alheio,
auto-misantropia
A construção do próprio entorno
ou as idas sem retorno
em caminhos sem volta



Pausa para um café
ou uma bala que não me toma tempo
Sem segredos
ou mentiras
Eu apenas não quero saber
Sem respostas,
da curiosidade não entendo
Barba por fazer,
blusa desbotada,
calça rasgada, tênis velho
Eu não mendigo a aprovação de outrem



Ah,há em mim um espelho
apenas a devolver o que lhe é dado
Não esconder nada,
mas a cultivar o silêncio




Alheio ao desinteresse do outro
indiferença é um exercício de “desimportância”
e desapego
Bobagem, besteira, nada não,
deixa pra lá,chato, sem graça, entendiante,
 insignificante e ignorado
A escrita do não em meu cotidiano
É só um jogo de palavras
o sentido é (vi)ver o mundo buscando um sentido
é fim de jogo, fim da linha, fim de papo






sábado, 13 de março de 2010

Do verbo gostar...






Gosto de uma forma ímpar
do cheiro de chuva
Meus olhos brincam
acompanhando os pingos dӇgua
Descanso do mundo
e lavo um pouco das minhas dores
com a chuva em minhas mágoas



 O gosto do pôr do Sol
e  da cor mais linda que não sei o nome
não sei descrever,
mas sei onde encontrá-la todos os dias
Degusto um sabor de baunilha do céu
no fim da tarde
o sol se põe e me impõe
a presença de lentes e luzes
(eu escuto melhor de óculos)
E no silêncio inerente à noite
eu (me) encontro (em) minhas idéias
A noite é o vazio do dia
e isso demanda muitas coisas para preenchê-la
sons, sonos,sonhos, idéias, ideais, leituras e escritas
A noite foi a melhor invenção(inversão) do dia





domingo, 7 de março de 2010




Alguma coisa mudaria...
(-Doce ilusão.)
ao procurar sem encontrar
sem saber o que se quer achar
ou por que se quer achar
Partir rumo ao nada
para construir o caminho
na caminhada
ou rastejar a vida toda
para ser borboleta por 24 horas
ou Cinderela até a meia-noite
Coisa alguma mudaria...
(-Desilusão.)





domingo, 28 de fevereiro de 2010

Da genialidade das coisas simples

     A grande resposta, a grande descoberta, a grande idéia, o grande plano... Estaria mesmo lá fora o que podemos encontar aqui? Preciso mesmo importar o alheio para contemplar o que me falta? Estão em mim as perguntas (e essas me valem mais que as respostas) e não lá fora, onde equivocadamente procuro.


     Cresci rindo da lógica silvícola ao trocarem tesouros por espelhos. No entanto, diante da imagem de minha incessante barba por fazer, no espelho do banheiro, ao ver um rosto que aprendi a chamar de meu, tive a epifania que os índios(os quais eu julgava tolos) tiveram há cinco séculos. Um espelho nos dá o maior tesouro do mundo: nós mesmos! A imagem refletida em um instante de auto-conhecimento em que os olhos só alcançam aquilo que somos.

     Eu por meus olhos. A obra de arte que nenhum pintor será capaz de conceber. Apenas meus olhos e os meus três graus de hipermetropia e astigmatismo podem me conceder. Algum reconhecimento nisso? Algum mérito em ver que sou eu mesmo?

     Da barba que não desiste de crescer ao cabelo que insiste em cair, eu vejo mais que a embalagem e até pergunto por que não me destaco na prateleira. Talvez por ser preciso que as pessoas me leiam amiúde, nas entrelinhas miúdas do meu rótulo deve ter minha composição e algumas instruções como manter longe de crianças e animais. No entanto, a lógica ainda favorece as embalagens maiores e mais chamativas(eu pensei apelativas?): “-Ah, vou pegar aquele maior com o frasco amarelo, que depois de usar eu posso aproveitar a embalagem que é tão bonitinha!” E eu lá na prateleira sem grana para um “merchandising” no horário nobre do dia de quem eu quero que queira o meu querer.  

     Nesse ponto, o índio é genial. (Além de andar nu, claro.)  Com um espelho ele ganha a possibilidade de desfrutar da companhia dele mesmo. O alheio lhe é indiferente. Ele tem diante de si um infinito de possibilidades a serem consideradas antes mesmo de ser preciso olhar para o lado. Os portugueses descobrindo um novo continente e o índio descobrindo um novo mundo.  Queria não ser “civilizado” e ter da mesma burrice indígena; aproveitar a companhia de alguém que (me) escreve todos os dias, faz piadas sobre tudo (mesmo que eu seja a única pessoa a rir) tudo“Tem computador e rede, rede para dois, gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão...”[1] e encontra sempre uma forma plural de dar espaço às criatividades e de expressar mais do que qualquer segredo guardaria. Mas não, insisto em ficar procurando minha imagem no espelho alheio...



(...)



[1]  “Gerânio”, Marisa Monte.












segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A solidão é um bem a ser cultivado...

     Da arte de estar sozinho, aprendo eu , comigo, no universo entre uma palavra minha e a escuta em silêncio de um alheio que sou eu de uma perspectiva diferente. Cultura de solidão, raízes no ar, sementes em mim, flores sem espinhos e caminhos sem fim. A eternidade se esconde na solidão das pequenas coisas.
     Os tons que se harmonizam no silêncio, as cores que concordam no escuro, as idéias que se encontram na solidão. É mais que espaço, é expansão. Liberdade escrita como verbo que conjuga a vida à luz da regência de um estado de plenitude. O encontro consigo mesmo como o encontro com a cara metade.   
     Os grandes livros, as grandes sinfonias... A imortalidade reside a duas quadras da solidão. A chave para dividir-se com o mundo está em concentrar-se em si mesmo. Não se trata de egoísmo ou misantropia, mas quem sabe, um altruísmo extremo ao construir nos espaços da solidão aquilo que pode dar sentido aos adjetivos belo ou genial. A escrita é artesanal. Não conheço arrendamento de palavras, conheço plágio e citação. É preciso reconhecer o monólito em uma idéia, sentimento, experiência e saber esculpir as palavras que ganharam um novo sentido à cada novo leitor. Leitura se faz sozinho, televisão se assiste em grupo. Solidão é vida, criação. A dúvida surge em silêncio, as respostas se ouvem em coros.
     O tempo que se passa sozinho é aprendizado, é como ter a possibilidade de se colocar a existência diante de um espelho. Não que a companhia das multidões e um milhão de amigos(para cada um me dar um real) seja uma coisa ruim. O fato é que família, amigos e amores ajudam na “caminhada da vida”. No entanto, a solidão é asas para uma vida livre. Dívidas só com a superação de si e dúvidas que não demandam respostas por imperativos alheios. É centrar-se e ter novas diretrizes para um horizonte construído à cada novo sonho. Solidão comporta todo o entendimento. É preciso estar em paz consigo mesmo para ousar um acordo com o mundo. Paz no sentido de harmonia, porque a guerra é ímpeto de movimento e este abre portas para a superação de paradigmas e portanto, crescimento.








quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sobre a(s) “desimportância(s)”...













    Por considerar grande parte das coisas desimportantes, aprendi a descobrir o que realmente poderia agregar alguma importância. Aquilo que não precisava ser definido como importante para ser importante. Não era a coisa em si, mas a forma como ela me chegava. Nunca me disseram que uma folha em branco e um lápis eram especiais. No entanto, um PC já nascia com a promessa de mudar sua vida. Nenhum saudosismo às falecidas “Olivetti”, mas a escrita artesanal por si só se faz importante.
         
         Dizer não para a terceira pessoa do plural é um exercício diário. Eu quero as minhas escolhas ratificadas e retificadas por mim. A indiferença pela dor alheia, nesse ensejo, poderia ser mútua. Ser menos humano é um benefício para o progresso da humanidade. Definhar é ceder espaço ao alheio mais forte  e não usurpar o espaço de outrem conquistado pela força. O peso dos fracos não deveria cair como um pesar para os fortes. Fazer da necessidade um mote para a criação, da fraqueza força, como aqueles que fizeram da solidão música, que da folha em silêncio criaram poesia, que diante do medo escreveram a coragem, que diante da ausência inventaram a saudade... 














segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010









A existência é, por essência, miserável...











segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Alheio




À saudade que
me traz você
em meus sonhos
que faz da falta
de você em mim
um conto
ou uma versão
do poema
da paixão de ontem
vivida hoje em mim
(enquanto fecho os olhos)




terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rebordosa (ou o poeta do silêncio)





O poeta do silêncio
ele me pertence
ou é posse minha?
Quando se confunde
o lado de dentro
com o de fora
com as portas abertas
janelas fechadas importam?

O não faz mais sentido
para quem sempre ouviu o sim
Fome não é ausência
por aqui,
é ímpeto de movimento
é um passo à frente
para deixar o futuro para trás

Às vezes, até me vem
achar que o saudável
é ter saudade
que o saudável
como uma rebordosa positiva
como um efeito colateral do que foi bom
sem mesmo fazer bem ou mal
apenas por ter um ponto final
e fica a saudade alentando a esperança
por uma reticências

Se me pudesse reescrever
cobriria à caneta esses rascunhos de lápis
Nem mesmo pintaria mais flores
(para não ter mais espinhos)
ou desenharia mais sorrisos
(para não ter que esconder tantas lágrimas)





domingo, 24 de janeiro de 2010






Até que a última canção seja cantada
Até que a última poesia seja escrita
Até que a última mulher seja amada


à sombra do passado incompleto
até se perceber no despropósito
como o grande propósito
A despretensão em achar que o destino
caberia alguma culpa
pelo fracasso
ou pelos acertos do acaso






quarta-feira, 20 de janeiro de 2010








"O perdão advém da impossibilidade de vingança."











domingo, 17 de janeiro de 2010




Mentir é narrar a história da maneira que nos convém. É usar eufemismos ao relatar os erros, metonímias para que as ações feitas na hora certa pelas pessoas erradas possam servir de indulto. Mentir é hiperbolizar os acertos e usar metáforas quando se precisa de calma e há demanda de se explicar. Mentir é ter na retórica e eloqüência a chance de se ter razão mesmo quando equivocado. A mentira é a imagem percebida (pela lente débil dos sentidos) do objeto verdade. A mentira é a diplomacia para o narcisismo das idiossincrasias. A mentira é a condição da existência da verdade, é a humanização da relação de mutualismo entre o homem e seus pares. A mentira é o sorriso que impede o conflito, é a confissão que absolve o culpado e delega a pena a um terceiro alheio e anônimo. Mentira são as entrelinhas dos versos, os hiatos entre as palavras, os parênteses, as lacunas, os desdobramentos, reticências e as aspas. A mentira é o “felizes para sempre” depois do fim da história. Mentira é a catacrese de nossos dias. Mentira é o amor secreto traduzido em três palavras.









quinta-feira, 14 de janeiro de 2010










Esperança é o primeiro passo para a frustração.













domingo, 10 de janeiro de 2010





Exercício de desapego e desinteresse
a mesma fuga
em um movimento contrário
O esforço para lembrar
é o mesmo para esquecer



Tirar a cartola do coelho
caminhar sob as águas
plantar um livro
escrever um filho
ter um árvore



Tecer as histórias
contar os afetos
em parágrafos ou versos
em paráfrases ou neologismos
O mesmo dito de várias formas
o mesmo beijo em várias bocas
o mesmo vazio em vários corações



sábado, 2 de janeiro de 2010








Ano novo de novo,de novo...











domingo, 20 de dezembro de 2009




Você se faz
reinventando
o sentido da beleza
agora, ímpar e plural


Entre seus versos
entre seis cordas
sempre a mesma tecla
e nunca a mesma nota

Pedaço de chuva em
gota de mim
Caindo e retornando
antes de tocar(-me) o chão


Você contradiz o meu silêncio
e se desvia para o meu olhar
o que já não se vê
mas se faz presente
como uma fala
inscrita em palavras


Me doar pra você
viver os sonhos
e sonhar com a realidade
Inverter o seu avesso
conjugar seus verbos
(em meus dias)
eu, você
em mim




terça-feira, 15 de dezembro de 2009




Se eu soubesse antes
o que ouso saber agora
se a dúvida não foi constante
Por que a certeza me vem nessa hora?
Se no seu olhar
eu encontrei um destino para o meu
Entre uma fala e o silêncio
de um dançarino sem par
Ainda teria no tempo um aliado(?)
ou um credor a me atormentar
Eu veria mais que isso
ainda que distante
Havia alguma parte em mim
guardando a esperança
para falar alguma coisa sobre
fazer algo a respeito
deixar ser o que for
pedir uma chance
ou deixar pra lá
Esperar a hora e a vez
criar uma oportunidade


Aos meus olhos nunca estive certo
e quanto aos seus
nunca acreditaram que eu estive
tão perto
Guardava o receio e vendia coragem
à mulher que trazia em meu peito
inundava meus sonhos
e transbordava-me a alma
ao encontro
do texto que (d)escreveria
nossa história


O belo se escondera
em nossos olhos
Agora, ela via em mim
um reflexo do que eu
havia visto ao encontrá-la



O agora era às vezes e
Eu já não era tão frase solta
eu esperava pelos seus versos
Ela cativara a dúvida em mim
florescia o momento
em que ela só diria sim





domingo, 13 de dezembro de 2009


Algumas histórias começam pelo fim, quando se dá conta que os seus personagens já não têm o que perder. Fica a música sem letra, os poemas sem rima e as pessoas entre uma solidão e outra. Entre um intervalo de silêncio e uma penumbra no fim do túnel. Haveria espaço? Haveria chance para o intolerável?


Alguns textos jamais seriam lidos, mas ainda assim serão escritos. Por mais que ninguém procure sentido nessas entrelinhas, sempre haverá um sub-texto, um contexto ou um pretexto ali escondido, ou mesmo, de tão exposto, ofuscante e não visível aos olhares superficiais.


À primeira vista se constroem os equívocos e se insiste na máxima irracional da permanência e hegemonia da primeira impressão. Nem amor à primeira, à vista ou a prazo em suaves prestações diluídas em doses homeopáticas distribuídas na eternidade da rotina de nossos cotidianos.


Eu aspirava a tanta coisa e sempre me cabia o plano B como inevitável opção viável. Mesmo que a razão me contemplasse, eu estaria fadado ao fardo de Cassandra ou mesmo um “spoiler” de uma história sem final. O abrigo estaria em umas poucas linhas mal escritas no intervalo entre a vigília e o sono. A vacância dos meus sonhos rendia-me algumas linhas enquanto eu aguardava ser arrebatado por meu sono. No entanto, cada linha era um passo que me afastava da possibilidade de adormecer e assim eu ia (me) escrevendo, como quem usa a bebida para esquecer que bebe ou como quem (se) usa das palavras para esquecer que está sozinho.





terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Por baixo do silicone também bate um coração...




Seria uma máxima da mulher moderna ou um contra-senso da cultura do contra fazendo frente à cultura dominante? O que dizer dos conceitos pré-formados relacionados ao segmento do universo feminino que faz o uso de alguns mililitros que estão na esfera do possível diante do desejo masculino por alguns centímetros a mais na sua vaidade fálica? Talvez para muitos homens isso soe indiferente. Aos que estão na média ou acima dela não é preciso criar axiomas de alento à esperança dos fracassados argumentando que o tamanho não é o aspecto mais significativo.


Pensar no quanto é desprezível o implante da suplente prótese de silicone é desconsiderar ou mesmo negligenciar a preponderância de uma indústria cultural que privilegia o volume e não necessariamente a densidade do conteúdo. As aparências emanam e preponderam nos desdobramentos de uma moralização dessa estética que fabrica seus ícones em um mundo surreal que é colocado como ideal de mundo a nossa realidade.


Acreditar que é plausível tal realidade em nossas vidas é como deitar voluntariamente na cama de Procustro, emblemático personagem da mitológico grego que morava em um castelo em Eleusis. Convidava os viajantes a pousarem no castelo, onde tinha uma cama de ferro. Se o convidado era muito grande para a cama, ele amputava o excesso; se a vitima era muito pequena, ele a esticava até as pontas da cama. Ninguém nunca cabia exatamente na cama de Procustro, porque ela era ajustável segundo a conveniência da vontade do personagem referido. Acordar com a violência contra si mesmo, excetuando-se o masoquismo em que esse é o intuito primordial da ação, qual a finalidade desse dispêndio? Servir aos valores de outrem em detrimento de si? Atribuir a uma terceira do plural o direito de decidir o que é melhor para si mesmo?


Abdicar do domínio de nós mesmos por um referencial externo que é indiferente a nossa dor deveria soar como algo impraticável. No entanto, muitos de nós não estão em uma posição favorável para perceber esses outros nuances de cores no horizonte. Pensar que ir de encontro à moralização dessa estética seria a solução é da mesma ordem da força que nos oprime. A mera substituição dos ditadores não é sinônimo de uma emancipação. Seria como andar em círculos, atitude predominantemente presente em quem se encontra perdido.


Eu poderia findar meu incômodo e minha indignação aqui. Poderia começar com as palavras panfletárias visando a uma emancipação ou parafrasear da forma mais clichê a máxima messiânica: “Proletariados do peso, (ou mesmo, de peso),uni-vos!” A melhor maneira de se dissolver na multidão é esquecer da força das pequenas revoluções e creditar sempre a terceiros a possibilidade de mudanças em uma eterna espera por uma grande mudança em nossas vidas. A revolução pode ocorrer do instante em que acordamos até o instante em que dormimos entre os espaços que percorremos nesse intervalo. Parece pequeno? Mas para ser grandioso é preciso apenas que aconteça em nós mesmos.


A mudança de dentro pra fora, a gota d’água, o insight, “-eureka!” ou menos que isso. Talvez a grande idéia seja perceber que aquilo que servirá para todo mundo não é a mesma coisa para todos nós. Será mesmo que todos os quadros recebem a mesma moldura? Evitar que nossa atitude desemboque em ações reprodutoras da mesma lógica de coisas que criticamos já pode ser um primeiro passo, e não é preciso muitos passos depois que se aprende a voar.





sábado, 28 de novembro de 2009




...do medo de ir e não voltar, do medo de ter que sempre voltar ou do medo de não ir. O medo de ter medo disfarçado de coragem ou a força destemida dos afortunados de loucura. Medo que se transveste de instinto de sobrevivência, medo que esconde histórias e medo de contar histórias. Não me é remoto lembrar do medo que eu tinha do que havia ou poderia haver embaixo da cama. Um dia coloquei o colchão no chão e joguei a cama fora.







terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um sapato velho que já conhecia meus calos...




De uma forma poética, vinha a maturidade chegando aos poucos. O exagerado de outrora encontrara brotando em seu peito um coração anseiando por razão. Ainda no mesmo corpo carecendo de carinho, o mesmo a duvidar de tudo, mas agora com novas dúvidas sobre as mesmas coisas. No entanto, uma nova dúvida sobre o mesmo objeto, transforma tudo em algo novo. O advento das respostas ainda estaria distante. Ainda havia mais portas a serem fechadas do que portas a serem abertas. Não estava em meu desejo que o futuro fosse apenas um prazo para se pagar as dívidas. Por algumas vezes, admiti o futuro como um epílogo do passado, mas agora se fazia imperativa a demanda pela reinvenção do novo.

Errar tentando dar uma resposta nova não carregava a conotação de erro. Queria em mim e aqui a possibilidade de estender ao infinito, porque o máximo, qualquer persistente sem muitas opções conseguiria. Seguia adiante, mas não incomodava mudar de lado, mesmo que só para ter certeza de que estava do lado certo. Certo?Só uma forma de expressar o equívoco de achar que se tem razão.

A barba por fazer, não por não me importar, mas por um desleixo caprichosamente descuidado. Como se o descaso estampado em meu rosto fosse uma metonímia para o descaso residente em meus dias.(Ou um convite ao cuidado.) Há muito havia estourado minha cota de ausência. Agora, era a minha vez de estar ausente. Estaria fadado às narrativas de histórias alheias que atribuía a mim? Tomara de empréstimo a alteridade como uma forma de construir a minha primeira pessoa do singular. Era o novo que me movia, era o anseio pelo porvir, mesmo que implicasse em tudo de novo.





domingo, 8 de novembro de 2009








O amor é cego, teve os olhos furados pela razão...













terça-feira, 3 de novembro de 2009




O erudito e o não-dito
no silêncio da prolixidade
na retórica transvalorada em saber
Toda uma inversão do reverso
às avessas do avesso
Por outro lado,
a mesma imagem por outros olhos
O mesmo homem
na companhia de uma nova solidão
Um novo livro à cada reedição
ou o mesmo,
livre de cada rendição


Os rascunhos nos tornam ímpares
a forma como se concebe um sonho
à fôrma como vamos sonhá-lo
um verso, um copo, um trago
Qual fuga me consome menos?
Qual desses medos já não temo?
Qual dos meus vícios é viciado em mim?





quinta-feira, 22 de outubro de 2009



E se eu não quiser saber
se eu não quiser ouvir?
Se eu não desejar para mim e
evitar que seja aqui?

Se o erro for inevitável,
mas a sua presença inevitável
em mim
talvez minha única escolha

Talvez o não
me chegue como
minha maneira
de dizer sim
ao pouco
que ainda insisto
em deixar ser meu

Mas meu não comporta posse
meu é apenas aquilo
que a memória
permite ficar em mim

Caçador de palavras
uma palavra perdida e vazia
me acerta em cheio
mas você não,
palavras certas estão em extinção

Eu já não procuro
aquele pedaço
que fora visto como falta
Quantas vezes me vi perdido
na busca constante
para o fim do que não tinha
em mim


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Silêncio de biblioteca




O espaço entre a ação e seus efeitos
teria o tempo que preciso
para ver na reação, os seus defeitos
como se a Lua esperasse
o pôr do sol para nascer
como se o amor esperasse
o coração perfeito para florescer
como se a vida esperasse
o melhor momento para acontecer


Um tiro no escuro
um arremesso às cegas
O tempo se esvai
É um novo jogo
para aqueles que ficam
Se eu tivesse uma única chance
e a certeza de errar
(a)tentaria mesmo assim,
por acreditar mais
em minhas dúvidas
que em minhas certezas


Como falar das cores mais belas
se ainda não há nome
para o colorido em seus olhos?


Como terminar a estrofe
com versos que não têm fim?
[com frações do Eu que só
quando se divide em alguém
se faz (por) inteiro]